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sábado, julho 26, 2014

Com o deserto na alma

 
 
Em Faya-Largeau cheira a regresso. Suavemente recuperamos algum do conforto a que a nossa privilegiada vida de europeus nos habituou. Trocamos a noite ao relento pelo chão de uma palhota, as dodots por um balde de água que vamos buscar ao poço.
No mercado encontramos legumes e roupas e animais e louças e mobília e armas. E tantos detectores de metal. E sorrisos e pedidos de fotografia e mais sorrisos.


O vento quente esqueceu a força da chegada e embala-nos docemente como a mão de um amigo que nos encaminha. Amanhã diremos adeus a estas areias, à doçura destes sorrisos.


No regresso à Europa um bom duche limpa a areia do corpo. O deserto, esse, fica sempre na alma.




sexta-feira, julho 25, 2014

Chade - álbum 4

O quarto e último álbum de fotografias do Chade, bem como os três anteriores,  podem ser vistos aqui.


segunda-feira, julho 21, 2014

Ce qui embellit le désert c'est qu'il cache un puits ...*



Haroum ri-se da nossa impaciência, o querer saber se "é já ali?". Não que o caminho seja difícil; o piso irregular de rochas instáveis ondula suavemente com subidas e descidas de poucos metros e as falésias protegem-nos do calor abrasador que haveria de chegar aos 48º.
"Os europeus são sempre assim, apressados. Aproveitem o caminho e não se preocupem com o resto." E nós, calados a contragosto, desejosos de saber se estávamos longe de Archi.

As águas do guelta são o reduto de alguns crocodilos, sobreviventes dos que abundavam na zona há muitos, muitos anos. De tamanho reduzido, têm como base da alimentação excrementos dos camelos, Ocasionalmente um pássaro que se distraia a bebericar, anima-lhes a dieta.

"São poucos e é muito raro que se consigam ver." acrescentou Haroum. "Se estivermos calad..." A voz de Haroum foi abafada por um barulho surdo, constante, que nos acompanhou nas últimas centenas de metros. Em silêncio, num crescendo de tensão, embalados pela estranha música, ziguezagueamos de rocha em rocha até que, depois de uma curva, a respiração suspende-se num sorriso: ei-los, os camelos no guelta de Archi, intérpretes da nossa banda sonora!


Rastejamos até uma saliência no penhasco e sentamo-nos, as pernas a balouçar no vazio, e muitos metros abaixo o espetáculos de dezenas e dezenas de camelos que bebem ou se refrescam, dos homens que lavam roupa, que recolhem água.
Pouco mais de 1 hora demorámos nós a aqui chegar. Eles, os cameleiros e os seus ajudantes-meninos, levaram  quase 3 dias. A vida dos que ficaram no acampamento depende dos que aqui vêm com os dromedários; um atraso, um percalço no caminho, um sono mais longo, um poço seco, pode ser fatal.


Regressam sob o mesmo sol impiedoso que os acompanhou na vinda. Outros 3 dias para transportar a água fétida com que aliviarão a sede da família e dos animais que os esperam. E, no dia seguinte, tudo recomeça.

Aqui o homem não tem a veleidade de dominar a natureza, é ela que o subjuga, que lhe permite a sobrevivência. Ou não.


* Le Petit Prince, Antoine de Saint-Exupéry

sexta-feira, julho 18, 2014

Le désert est beau, ajouta-t-il... *


"Não vale, esta tarde já disseste magnífico" exclama P. atrás de mim! Rio-me e procuro um sinónimo. À laia de jogo combinámos não repetir adjetivos, o que é uma tarefa complicada pois o cenário por onde andamos merece-os todos e a todo o instante.
O Ennedi não é o primeiro deserto para nenhum de nós, os nossos olhos já se maravilharam com outras partes do Sahara, mas este pedaço consegue surpreender-nos.
Deixamo-nos deslumbrar pelas rochas de formas bizarras, os arcos trabalhados que se elevam imponentes no céu azul, as pinturas e gravuras que enfeitam  paredes e grutas. E são tantos os arcos e são tantos os desenhos e tão seguidos que mal temos tempo de respirar entre uns e outros. E os adjetivos, repetidos ou não, saltam espontâneos.


Mas não ficamos pelas belezas geológicas. O Ennedi é um deserto cheio de vida: gazelas, cabras, burros, macacos e até o espetáculo comovente da primeira tentativa de dromedário recém-nascido se pôr em pé (video). Os adjetivos, desta vez, não saíram, ficaram colados na garganta.


Estamos perto do Sahel, a fronteira entre as areias do Sahara e as florestas da África tropical, a água está longe mas não demasiado e permite a sobrevivência de algumas famílias Goran, conhecidos pela tenacidade com que resistem à dureza do deserto. Para eles o tempo como o conhecemos não existe, são as necessidades dos animais que condicionam a vida do grupo - procurar a vegetação rasteira que possa servir de pastagem, protegê-los dos predadores, arranjar-lhes água. Que existe, mas nunca a menos de 2 ou 3 dias de distância.
Expressões como "falta de água", "sede", "calor sufocante" têm aqui outro significado. Mais profundo. Muito mais duro.

* Le Petit Prince, Antoine de Saint-Exupéry

quarta-feira, julho 02, 2014

Me peina el viento los cabellos*



O vento quente e muito forte marcou a nossa chegada a Faya Largeau. Havia de continuar a soprar apesar das promessas: "Pára sempre por volta das 12h." Meio dia que foi passando a 15h, ... a 17h... até chegarmos ao veredito: "É sempre assim."

E foi o vento, sempre quente e cada vez mais forte, que nos acompanhou na travessia do vasto cordão dunar do Djourab. Não estamos longe da depressão de Bodélé, para onde se dirigem estas areias enfurecidas vindas do Tibesti e do Ennedi. Bodélé é considerado o lugar mais poeirento do mundo, palco de violentas tempestades de areia que, durante mais de 100 dias por ano, transportam diariamente 700 000 toneladas de poeira para lugares tão distantes como Cabo Verde ou mesmo a Amazónia.


Mas regressemos às dunas de Djourab onde encontramos os primeiros tanques, os primeiros obuses abandonados, restos recentes de lutas internas ou da guerra com a Líbia.
Os jipes saltam nas areias moles, enterram-se, exigem o esforço de todos para se libertarem. E o vento, obstinado, cada vez mais forte, a misturar grãos de areia com os do arroz simples que nos serve de jantar.


Enroscamo-nos nos sacos-cama procurando abrigos onde não existem, adormecemos protegidos pela via láctea. Se a areia que rodopia à nossa volta nos permitisse abrir os olhos vê-la-íamos linda, magnífica, a velar por nós.

E na manhã seguinte, sacudida a areia que a noite acumulou nos cabelos, na cara, nas pestanas, vencidas as últimas dunas, entrámos no Ennedi. Sem vento. Quase.


sábado, junho 28, 2014

Chega de saudade*

Será a saudade do deserto razão bastante para justificar uma viagem ao Chade? Claro que sim!
Façamos então ouvidos de mercador à diplomacia portuguesa que desaconselha qualquer deslocação não essencial e partamos para o Ennedi, classificado como "zona instável, sujeita a atos de violência, onde a quantidade de minas constitui um perigo permanente".

 
O governo francês vai mais longe dizendo que só razões imperativas podem justificar uma incursão no Ennedi, região que considera como corredor de passagem para os grupos armados do Mali, rota de tráfico de armas, droga e álcool. E continua, salientando o acesso difícil, a ausência de estruturas rodoviárias, sanitárias e médicas. No caso de uma viagem estritamente necessária é obrigatório o enquadramento por veículos de segurança chadianos que incluam uma equipa médica. Termina com o aviso de que o governo francês não se responsabiliza pela segurança dos gauleses do Chade.

Partimos por nossa conta e risco, enquadrados pela única agência francesa que desafia as autoridades e assegura os vôos de Marselha para Faya Largeau, no norte do Chade.


Sejamos realistas. Sabemos que nos espera um Sahara mais duro que o habitual, um país que abre incipientemente as portas ao turismo tentando aproveitar as que se fecharam na Argélia, na Líbia, Níger, Mali... Mas, precisamente por isso, há da parte do governo do Chade um forte empenho em que nada ensombre a vinda dos grupos que se aventuram pelo "seu" deserto.

Sinais de guerra vimo-los quase todos os dias - os tanques abandonados, os obuses semi-enterrados na areia, as placas a assinalar zonas minadas. (E esta, que pisamos agora, não estará?) A falta de cuidados médicos sentimo-la nas primeiras horas da viagem quando o guia nos pediu desinfetante e pensos para tratar o dedo que a cozinheira cortara. É básico, mas não há.


As refeições foram, dia após dia, uma base de arroz ou cuscus salpicada por um molho onde nadavam algumas sardinhas ou atum de conserva.

Mas o resto, o resto é o deserto. As pastilhas para purificar a água esverdeada, a higiene sumária, o calor asfixiante; e as noites ao relento sob um céu de milhões de estrelas, as paisagens fabulosas que nos esgotavam os adjetivos.


Chega de saudade, Tom Jobim


quarta-feira, fevereiro 26, 2014

sábado, fevereiro 15, 2014

Rumo ao Chade



Quase, quase de partida para o Chade. Um visto colorido a estrear o passaporte e uma efeméride: quando lá puser o pé o nº de países visitados vai igualar o dos meus anos.