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sábado, julho 05, 2008

Ao cair do pano...

Último acampamento quase junto ao Niger e às portas do Ténéré, o deserto dos desertos, o Sahara despede-se de nós com o pôr e o nascer do sol mais espectaculares desta viagem


Et puis il y a toujours une dernière crête de dune avant la plaine et ses graviers, un dernier bord de plateau d'où se révélera tout à coup l'immense panorama du bas pays, une dernière étape, une dernière nuitée sous les etoiles, une dernière aube, un ultime coup d'aviron avant de rendre la barque prêtée, avant le dernier acte et le rideau.
Théodore Monod

sexta-feira, julho 04, 2008

Magia...

Au Sahara la magie est partout. Elle semble incrustrée dans le sol, tapie dans les puits, infusée dans chaque chose.

Henri-Jean Hugot


quinta-feira, julho 03, 2008

Le désert semble éternel ...


Le désert semble éternel à celui qui l'habite et offre cette eternité à l'homme qui saura s'y attacher.

Manu Dayak

Manu Dayak é um dos nomes míticos associados ao Sahara. Depois de uma infância nómada no norte do Niger e de estudos de antropologia berbere feitos nos Estados Unidos e Paris, regressa ao Niger, torna-se guia do deserto e colabora com Thierry Sabine em várias edições do Paris-Dakar. Foi um dos principais chefes da revolta tuaregue e é tido como a voz que levou ao mundo a existência e sofrimento do seu povo.
Morreu num desastre de avião em Dezembro de 1995.


domingo, junho 22, 2008

Passo a passo


Avancer pas à pas, au ras du sol et sans hâte, avec pour seul et modeste objet, mais aussi pour royale récompense à tant de patients efforts, la découverte d 'un grain de savoir et vérité.


Théodore Monod


sexta-feira, junho 06, 2008

quarta-feira, junho 04, 2008

Aman Iman - a água é a vida


Ce qui embellit le désert, dit le petit prince, c'est qu'il cache un puits quelque part...


Antoine de Saint-Exupéry
in Le Petit Prince

segunda-feira, junho 02, 2008

Deserto - o chá em triplicado

Seja no mais faustoso banquete ou num modesto acampamento, não há refeição tuaregue que termine sem um copo de chá. Do verde, com muito açúcar.
Aqui, no frio da noite, é mais um pretexto para uns momentos de conversa antes de recolhermos aos sacos-cama.
Mãos hábeis passam o líquido da chaleira para o copo, do copo para a chaleira, várias vezes, para misturar o açúcar e criar espuma. E, finalmente, o nosso copo. Aliás, não um mas três.
O primeiro e mais forte é , dizem, amargo como a vida, o segundo doce como o amor e o último suave como a morte.

sexta-feira, março 21, 2008

A estrela de Belém

Foi preciso um último pedaço de queijo de cabra para que Moulay nos desse a solução da adivinha: "nada" (ver post "Os meninos à volta da fogueira..." de 2 de Março).
Resolvido o enigma o céu foi, uma vez mais, o tema das conversas.
"Qual destas é a estrela do Pastor?", perguntou Véronique, a suíça. Demorei um pouco a perceber que falava do que para nos é a estrela de Belém.

"Partiram e eis que a estrela que tinham visto no Oriente ia diante deles até que, chegada sobre onde estava o menino, parou."
Mateus, 2:1-16

Não admira que Véronique não fosse capaz de a encontrar, já que o problema, bem mais complicado que a adivinha de Moulay, tem constituído um desafio para astrónomos de renome e, mesmo nos dias de hoje, está longe de solucionado e continua a entusiasmar cientistas. A polémica persiste. Um cometa, uma conjugação de planetas, uma supernova, como advogava Kepler, uma sequência destes sinais ou apenas o planeta Júpiter em conjugação com a Lua? É que Júpiter, no seu movimento retrogrado, "caminha" de leste para oeste nos céus e, depois de um breve periodo de "paragem", recomeça o movimento aparente normal "deslocando-se" nos céus de oeste para este.
Ou será que a estrela de Belém foi mesmo um milagre?

(inspirado em "O que era a Estrela de Belém?", de Nuno Crato)

quinta-feira, março 13, 2008

Ernest

À equipa tuaregue que nos acompanhava juntava-se um elemento "extra": Ernest. De aspecto muito mais modesto que os companheiros, estava ali para os ajudar, se bem que não recebesse qualquer remuneração.
Incansável, tão depressa o víamos a ajudar na cozinha como a procurar e cortar lenha para a fogueira da noite, a carregar e descarregar o material, a lavar a louça...
Mas era no contacto connosco que Ernest se revelava, realmente, único. Discreto, tímido até, sempre atento às nossas vontades, e, como se isso não bastasse, não raras foram as noites em que, apesar do cansaço, se sentava à volta da fogueira e animava o ambiente com músicas tiradas da espécie de guitarra que o acompanhava.

E no momento das despedidas deixou-nos sem fala surpreendendo-nos com uma prenda a cada um de nós: cestos, caixas forradas a papel e por si pintadas.
Ernest de DJanet ficará para sempre na nossa memória.

quinta-feira, março 06, 2008

Que me saiba perder para me encontrar

O deserto não se compadece de ninguém; endurece o corpo, esculpe a alma. É necessário suportar o calor do dia, o frio da noite, a ausência do sentido do tempo e do espaço.
Theodore Monod

Londe das paisagens verdejantes descobri no Sahara um reflexo da minha paisagem interior... Atravesso um mundo onde, por fim, o sonho coincide com a realidade.

André Chouraqui

domingo, março 02, 2008

Os meninos à volta da fogueira...

Aconchegamo-nos ao redor da fogueira para lutar contra o vento frio. Ao jantar de Natal reforçado que a agência providenciou, e que significa sopa, cuscus de legumes e ananás de lata numa "mesa" enfeitada com velas, juntamos pedaços dos nossos países distantes: figos com nozes para um sabor a Portugal, um doce coração suíço, um gaulês queijo de cabra e, surpresa!, uma garrafa de vinho tinto que nos aquece a alma.

O silêncio do deserto é quebrado com música e cantigas e Moulay, o elemento mais velho da nossa equipa touareg, entretem-nos com adivinhas:
"Melhor que o paraíso, pior que o inferno; os pobres não têm, os ricos não precisam. Se não comeres morres."
E durante alguns dias, quando tentávamos, em vão, descobrir a resposta, apenas lhe conseguimos arrancar um: "Tu cherches, tu trouves."

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Era uma vez... Orion

A noite chega, as sombras dos rochedos dissolvem-se na escuridão e, antes que a lua apareça, as estrelas cobrem o céu. A custo descobrimos Orion, perdida no meio de milhares de outras.

Filho de Posídon e de Gaia, o gigante Orion não passava despercebido às mulheres e deusas graças à sua beleza e porte atlético. Amante da caça, gabava-se de ser capaz de matar qualquer animal que encontrasse.

Um dia apareceu-lhe no caminho o maior escorpião que alguma vez tinha visto. Era maior que Orion, que era um gigante, maior do que qualquer animal que alguma vez vivera. Orion atacou-o, envolveram-se numa luta feroz mas o escorpião, de carapaça impenetrável à espada e flechas de Orion, foi o vencedor da contenda matando o guerreiro com uma ferradela venenosa.


Impressionado com o poder do escorpião e a bravura de Orion, Zeus levou ambos para os céus mas colocou-os de modo a que nunca estivessem juntos no firmamento. Assim, quando a Primavera começa, Orion desaparece no brilho do Sol e, no Outono é a vez doEscorpião ser engolido pelo horizonte do ocaso.

Adaptado de Zodíaco: Constelações e Mitos (Nuno Crato). O texto completo pode ser lido aqui


(Imagens retiradas da Internet)

domingo, fevereiro 24, 2008

Geometrias...

O observador não deixa de se espantar com a simplicidade das formas, com a precisão das texturas, com os padrões geométricos.

Ralph Bagnold

domingo, fevereiro 17, 2008

Tadrart em imagens

A partir de hoje o Mochila às Costas tem ligação directa aos álbuns de fotografias da viagem à Argélia. Para os ver basta "clicar" aqui ao lado. Os das restantes viagens serão acrescentados aos poucos.

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Il n' y a pas de plus grande émotion que d'entrer dans le désert

Primeiros passos, primeiro acampamento junto a altas paredes rochosas que formam com a areia uma espécie de beco sem saída. Acordo a meio da noite, olho os meus companheiros que dormem na areia, espalhados por aqui e acolá, enroscados, como eu, no aconchego do saco-cama. O vento que sopra não é demasiado frio e fico por instantes a olhar a paisagem a que a lua cheia emprestou magia. Os rochas são castelos de prata, as areias parecem ondas de um mar muito brilhante. E torno a adormecer com um sorriso na alma.
Manhã bem cedo, a rotina habitual: arrumar o "quarto", o pão e a bebida quente do pequeno almoço, encher o cantil, pôr a mochila às costas e partir.

Caminhamos no leito seco de um rio. As poucas árvores, secas todas elas, que nos fazem pensar numa savana seca e desolada, parecem transportar-nos para uma época em que tudo era verde, em que por aqui andavam elefantes e girafas.
Aos poucos a paisagem muda. Surgem rochas, surgem as primeiras dunas e até as nuvens vêm dar um ar da sua graça. O deserto envolve-nos numa mistura de cores, formas e texturas...


*****
Il n' y a pas de plus grande émotion que d'entrer dans le désert
J.M. le Clézio
in Gens des Nuages


sábado, janeiro 26, 2008

Por favor... desenha-me um carneiro

Mas ninguém nos desenhou carneiros, apenas girafas, bois, guerreiros e mulheres. Também não foi St Exupéry o autor dos "desenhos" mas quem, há alguns milhares de anos, por aqui andou. "Aqui" é a Tadrart, no Parque Nacional do Tassili, no sudeste da Argélia, onde o país se encontra com a Líbia e o Níger, uma das regiões do mundo mais ricas em arte rupestre.

Verdadeiro museu a céu aberto, precioso como um velho livro que se folheia cuidadosamente, os seus 80.000 km2 de areia e pedra têm estatuto de Património Mundial da Humanidade, da Unesco, de Reserva do Homem e da Biosfera.
Conheceu, como todo o Sahara, uma sucessão de fases húmidas e secas, de que a morfologia do planalto mostra os traços. Os inúmeros vestígios rupestres são provas espantosas das oscilações do clima, retratos de um passado bem diferente.

Girafas, gazelas e elefantes, pintados ou gravados nas rochas, velhos de 8.000 anos, vacas, guerreiros, cenas do dia-a-dia, com 3 ou 4 mil anos, são o que resta de um paraíso tropical há muito desaparecido.

E foi este o cenário, de gravuras milenares e areias vermelhas, o escolhido para o Natal de 2007.

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Pausa forçada

É sempre duro o regresso do deserto, o retorno ao trabalho, às confusões e barulhos do dia-a-dia. Mais ainda quando nos vemos privados de acesso à internet em casa. Utilizar a net do trabalho para actualizar o blog não seria visto com bons olhos e, por isso, a mochila tem estado arrumada a um canto, sem ver a luz do dia. Enquantos os problemas cibernéticos não se resolvem deixo uma imagem de um pôr-do-sol às portas do mítico Ténéré e a promessa de que I'll be back as soon as possible.