domingo, dezembro 01, 2013

Dezembro

Não há em dezembro valente que não trema



Resguardar as plantas do gelo. Arrotear terras e mato para as sementeiras da primavera. No Crescente continuar as covas e a estrumagem. Continuar a poda e das vinhas e mergulhia das vides. Fim da apanha da azeitona e limpeza dos lagares.

in Almanaque Borda d'Água, 2013

sexta-feira, novembro 01, 2013

Novembro

Tudo em novembro guardado; em casa ou arrecadao

 


Os pomares devem ser estercados no Crescente e podados no Minguante, devendo protegê-los das geadas. Plantar cerejeiras,pessegueiros, pereiras e macieiras no Crescente. Na adega, verificar as vasilhas do vinho novo. Destilar bagulho para fazer a aguardente.

in Almanaque Borda d'Água, 2013

terça-feira, outubro 01, 2013

Outubro

Outubro quente traz o diabo no ventre

 



Iniciar a colheita da azeitona e combater a gafa. No Minguante estercar as covas para árvores a transplantar na primavera. Plantar árvores de fruto e podar (corte diagonal) as árvores resistentes ao frio. Colher feijões.

in Almanaque Borda d'Água, 2013

domingo, setembro 22, 2013

No reino das Montanhas Celestes


— Senhor, e para mim?
— Ó diabo!, deixou escapar o bom Deus olhando para o chefe quirguiz especado à sua frente. "A distribuição de terras pelos povos já acabou. Chegaste atrasado, não sobrou nada!
— E agora, Senhor? O que faço? Para onde  vou com as minhas gentes?

Deus respirou fundo, proferiu mentalmente umas santas imprecações, contou até 1000 muito devagarinho, até que, com um suspiro de vencido, disse:

 

 — Na verdade há ainda um pequeno pedaço. Tinha-o guardado para mim, de tão belo que é ... [Pausa seguida de novo suspiro]. Bom... fica lá com ele

E assim nasceu o Quirguistão, um cantinho do paraíso, terra digna dos deuses. Bem vindos ao país das montanhas celestes!


domingo, setembro 01, 2013

Setembro

Para vindimar deixa o setembro acabar

 



Ceifar arroz. Colher amêndoa. Estercar as terras a semear no Minguante. Nos pomares, aquando da última apanha de fruta, dar início à poda e limpeza das árvores. Plantar com as primeiras chuvas, os morangueiros, regando até pegarem.
in Almanaque Borda d'Água, 2013

domingo, agosto 25, 2013

sábado, agosto 24, 2013

Últimos cartuchos

 Para despedida do Quirguistão talvez se faça uma caminhada no desfiladeiro de Sokuluk, ou no Kegeti, ou... sei lá.

sexta-feira, agosto 23, 2013

À volta de Bishkek

Chegámos ontem à capital e partimos para uma caminhada num dos vários parques naturais que ficam perto. Ala-Archa é uma das hipóteses.

(foto: Vitaliknyc)


domingo, agosto 18, 2013

Quirguistão profundo


Dia de estrada para regressar a Tash Rabat, desta vez para aí passarmos os próximos dias num jailoo, o acampamento de verão dos nómadas quirguizes, com quem partilharemos o dia-a-dia.  Não sabemos se a família que nos vai acolher fala alguma língua que entendamos mas, enquanto ajudamos na lides da casa ou com os animais, fazemos caminhadas e cavalgadas, alguma coisa havemos de aprender. 
Algumas hei-de ter de saber, para não repetir a famosa cena da Mongólia. Curioso? Pergunte-me quando regressar. ;-)

sábado, agosto 17, 2013

Na capital

No regresso a Bishkek mais uma caminhada, esta pelas gargantas Boom. Paramos ainda na torre Burana, restos da cidade de Balasagum. Despedimo-nos do grupo e preparamo-nos para uma semana a solo em terras quirguizes.




sexta-feira, agosto 16, 2013

Em Saint Tropez

Seguimos agora pela margem norte do Issik Kul até pararmos em Tamchi que dizem ser a Saint Tropez do Quirguistão. Não sei se é bom sinal...



quinta-feira, agosto 15, 2013

quarta-feira, agosto 14, 2013

No lago quente

Apesar de se encontrar a 1600m de altitude o Issi Kul e rodeado de montanhas e neve, o lago é alimentado por uma mistura de águas de degelo temperadas com a que vem de nascentes quentes . Pode ser que dê para um banhito...


terça-feira, agosto 13, 2013

Kochkor

Seguimos para Kochkor onde, dizem, é o sítio ideal para comprar ovelhas. Em vez disso talvez seja preferível saber um pouco mais de Manas, o herói do mais importante poema épico.


segunda-feira, agosto 12, 2013

Tash Rabat

Dia passado na zona do caravanserai de Tash Rabat que, em tempos que já lá vão, viu passar as caravanas da Rota da Seda.


domingo, agosto 11, 2013

sábado, agosto 10, 2013

No jailoo

Dia passado num jailoo, que mais não é que o acampamento de verão dos pastores nómadas. Assistir e ajudar nas lides diárias, caminhada, andar a cavalo, logo se verá o que apetece.


sexta-feira, agosto 09, 2013

O lago seguinte

Hoje chegamos ao Song Kul, que na língua local significa "lago seguinte". Dormimos numa yurt à beira do lago.


quinta-feira, agosto 08, 2013

Kazarman

 Viajamos quase colados ao Usbequistão, através de montanhas e vales com yurtes semeados de yurtes.


quarta-feira, agosto 07, 2013

terça-feira, agosto 06, 2013

Rumo ao sul

A caminho de Osh, com passagem pelo lago Toktogul, Djalal-Abad e Ouzgen.

 (Foto:http://m.ammoth.us/blog/)

segunda-feira, agosto 05, 2013

Garganta de Tchichkan

Foto: http://pascal-pekin-londres.blogspot.pt/

Deixamos a cidade e começamos o mergulho na natureza. Os primeiros nómadas e muitos vales, gargantas, montanhas até chegarmos às gargantas de Tchichkan, onde dormimos.

domingo, agosto 04, 2013

Bishkek

Com o vôo previsto para chegar às 4h da madrugada há que forçar o abrir dos olhos  para tentar ver um pouco de Bishkek.

Foto: Vmenkov (Wikimedia )

sábado, agosto 03, 2013

Rumo ao Tão


Em Paris, preparada para partir, ao início da tarde para o Quirguistão, via Kiev.


E onde fica o Quirguistão? Ali mesmo ao lado do Usbequistão, do Casaquistão e do Tajiquistão. Tão fácil. O esquema da viagem vai ser, mais ou menos o da imagem.


quinta-feira, agosto 01, 2013

Agosto

Luar de Janeiro não tem parceiro; mas lá vem o de Agosto que lhe dá no rosto. 


Cavar e sachar o milharal e as hortaliças, e regar bem , antes das sementeiras e das transplantações; em estufa semear ervilha e feijão. Recolher fruta e no Minguante secá-la. Na vinha desparrar moderadamente para que as uvas amadureçam. Animais: no gado, completar a forragem com suplemento alimentar natural.
in Almanaque Borda d'Água, 2013

terça-feira, julho 30, 2013

H2 Olland


 São 165 canais, um feixe retorcido de 75 quilómetros, desenhados como caracteres chineses que se enroscam em torno das casas medievais. A cidade esmera-se na sua manutenção; a água é renovada várias vezes por semana, os barcos-do-lixo ocupam-se regularmente da recolha de detritos e das muitas bicicletas caídas ou atiradas à água. (ver aqui)

Páre-se um pouco numa das 1400 pontes, verdadeiras anilhas que seguram os canais. Apoiados varadim, podem passar-se horas a observar os patos e garças que fizeram dos canais a sua casa, a ver os barcos turísticos ou privados, a olhar a animação das esplanadas, as casas-barco a balouçar embaladas pela ondulação, ou simplesmente a assistir ao pôr-do-sol junto à icónica ponte Magere , pano de fundo de tantas fotografias de casamento.


Anoitece e casas, canais e pontes enfeitam-se de luzes como se de um presépio de tratasse. É tempo de dizer adeus a esta cidade de contrastes, livre e regrada,  onde as coffeshops apresentam um menu cheio de drogas leves e cogumelos mas não servem uma gota de álcool, onde, à noite, o sexo é permitido no principal parque da cidade desde que os preservativos não sejam deixados ao abandono, onde a água  e a terra se misturam numa simbiose perfeita.


Fechemos a porta pela mão de Cees Nooteboom:

This is my city, a token for the initiated. She will never fully reveal herself to the outsider who does not know her langauge and her history, because it is precisely langauge and names thar are the keepers of secret moods, secret places, secret memories. Open city, closed city. One city for us, one city for the others. A city on the water, a city of people, devised and written by man and water. A city of all times, and a city of time. A city that exists twuice, visible and invisible, of stone and wood and water and glass and also of something that cannot be named in words.

sexta-feira, julho 26, 2013

O vermelho e o negro


Ainda os olhos não se habituaram à diferença de luminosidade e já ao cérebro é pedida uma adaptação bem maior. Sai-se da Oude Kerk pisando as lajes onde repousa a fina-flor de Amesterdão, deixa-se o ambiente escuro e respeitável e, mesmo junto à porta principal, os pés quase esmagam a escultura em bronze que se destaca das pedras da calçada. Uma mão e um seio. Não se sabe quem a fez mas por lá ficou, numa homenagem às prostitutas da cidade.

 

Vira-se à direita, cumprimentando a estátua da prostituta Belle (encaixotada para recuperação aquando da minha visita), dão-se meia dúzia de passos e, paredes meias com as vetustas paredes sagradas, estão as janelas decoradas com veludos e rendas, luzes e vermelhos, onde meninas de várias idades, raças, formas e até género, tentam aliciar clientes.
Estamos em pleno Rossebuurt, o Bairro Vermelho, que, ao contrário do que se possa supor, não é uma zona da cidade a evitar. As ruas são animadas mas seguras, o policiamento é discretamente eficaz. Locais, turistas curiosos, adolescentes em fase de afirmação, homens de meia idade em crise de identidade, famílias inteiras... todos passam por lá.  Há bares históricos, restaurantes animados; ao lado de uma inocente padaria uma loja de preservativos expôe-os na montra, coloridos, com bonecos ou animais. Nas casas de recordações chocolates de formas... huumm, peculiares, partilham o espaço com postais, tamancos, porta-chaves e bibelots, também eles por vezes ... huumm...
Mais adiante uma boneca insuflável anima uma montra de torradeiras, cafeteiras e outros domésticos.

 

As meninas estão registadas e até têm um botão de emergência para contactar as autoridades caso algum encontro corra mal. Mas, convém não esquecer que prostituição é prostituição e que nas montras há vítimas do tráfico humano, trazidas ao engano, mantidas à força por uma mafia poderosa, que não hesita em promover encontros secretos envolvendo crianças.
Apesar de legais as janelas animadas e vermelhas escondem, como em todo o mundo, um outro lado, bem negro.

segunda-feira, julho 22, 2013

Dar ao pedal


São velhas, sem mudanças nem travões, são omnipresentes, são as bicicletas de Amesterdão.
Todos as usam, novos e velhos, para o trabalho ou para a ópera, para levar o filho à escola ou o cão a passear e até para atirar aos canais nas noites de desvario. De calções ou fato completo, salto alto ou havaianas, mas nunca de capacete.

As regras de circulação são as habituais, mas ninguém as cumpre. Sentido único? Pfff... Proibições? Pfff... Na bicicleta namora-se, lêem-se os títulos do jornal acabado de comprar, telefona-se, escrevem-se sms. Sempre a pedalar. 

 

No estacionamento junto à estação central, onde se amontoam 2500 velocípedes, é visível o esforço que os proprietários fazem para distinguir o seu. Um selim colorido, uma fita pendurada, uma bolsa com bonecos. Mesmo assim é frequente não se conseguir encontrar a bicicleta que se arrumou ao início do dia. Ou porque há uma centenas iguais e já-não sei-onde-é-que-a-deixei ou porque foi roubada. Em qualquer dos casos aplica-se a lei de talião, olho por olho, dente por dente, e, não encontrando a própria, sai-se com a que estiver mais à mão.
Os roubos são tão frequentes que há quem diga que, se gritarmos "Ei, essa bicicleta é minha" junto a um grupo, mais de metade foge a correr.

Bike like a local, recomendam aos turistas.  Assim seja... duas pedaladas e parto à descoberta de Amesterdão.





quinta-feira, julho 18, 2013

O turbante otomano

É à palavra turca para "turbante" que vai buscar o nome: tulipa.
Foi também turca a mão que a transformou de simples planta silvestre da Ásia central à flor que apaixonou a Europa, onde chegou por outra mão, a do embaixador dos Habsburgos no império otomano.

Sinal de riqueza, chegavam a ser dadas verdadeiras fortunas pelos bolbos mais raros, num despique de ostentação que rondava a loucura.
Existem mais de 100 variedades de tulipas e o melhor sítio para as ver é o Keukenhof, que abre as portas ao público durante as 8 semanas de floração. 

A primavera envergonhada e fria atrasou o calendário, os campos que esperava ver pintados de cor eram apenas extensões enormes de promessas. As flores concentravam-se nos pavilhões-estufa e, contrariando os meus receios, deram espetáculo, deixaram a vontade de um regresso numa primavera mais cooperante. 

domingo, julho 14, 2013

À mesa


foto: I live in a frying pan http://www.iliveinafryingpan.com/

"Uma str..., stroo..., uma coisa dessas, por favor."
Felizmente o produto é bem mais fácil de digerir do que o nome. E bem mais saboroso. São duas bolachas finas que levam no meio um recheio de caramelo. Aqui não são servidas do modo tradicional, em que o conjunto deve ser colocado sobre um copo de uma bebida quente para que o vapor aqueça a bolacha inferior e derreta o caramelo mas mantendo a bolacha superior estaladiça. A que me vendem é aquecida numa chapa mas o resultado é na mesma delicioso.

foto: I live in a frying pan http://www.iliveinafryingpan.com/ 

Se não tivesse optado por experimentar uma stroopwafel podia ter testado as poffertjes. Junte-se as pontas do indicador e do polegar e o buraco por eles formado é a medida exacta destas mini-panquecas holandesas. Fofas, polvilhadas de açúcar, mergulhadas em manteiga e servidas à dúzia.

foto: wikimedia a little tune http://www.flickr.com/photos/alittletune/) 

Come-se "gordo" em Amesterdão. As Febo, distribuidoras de colesterol, são verdadeiros restaurantes dentro de uma máquina que, a troco de uns trocos, regurgitam croquetes, hamburgueres e até guisados, quentes, prontos a comer. Fast mais fast, não há.
Nas ruas cruzo grandes cones de batatas fritas nas mãos de passantes que as envolvem em maionese, molho de maçã, amendoim,  cebola ou... todos.

Fiquemo-nos pelas provas de queijo de cabra ou vaca, velho ou novo, e ousemos o arenque cru, um filete com a espessura de um dedo, que os locais comem no melhor estilo-pelicano, deixando o peixe escorregar pela goela. Os fracos, como eu, juntam-lhe cebola crua e pão.

foto: http://insidenanabreadshead.com/
 
Faltou-me a jenever (genebra?), o gin holandês que foi criado como medicamento mas que rapidamente passou a ser a cura para outros males. Serve-se em copos em forma de tulipa, cheios até ao bordo. Se tivesse provado devia fazê-lo como os habitués, inclinando-me sobre o copo, mãos atrás das costas, para o primeiro golo. Vai ter de ficar para a próxima.

quarta-feira, julho 10, 2013

Atrás da porta

Ai..., as  portas de Amesterdão ...
O que parece ser uma entrada vulgar no bairro vermelho é uma igreja, construída para que um jovem pudesse estudar para padre, na época em que os calvinistas proibiram a religião católica. 


Ou a outra, em Kaalverstraat, a rua mais cara do Monopólio holandês, em que um papagaio e a frase "15 minutos para Deus" nos deixam passar para mais uma igreja clandestina do século 17.


Mas a surpresa maior talvez seja o Beguijnhof. Está-se numa das praças mais movimentadas da cidade, a Spui. Gente apressada, tramways, livrarias, lojas e barulho. Uma porta discreta que se empurra e entramos numa máquina do tempo. Atrás de nós o bulício do século 21, à frente o século 14, tranquilo. Um pátio ajardinado, com casas pequenas, que albergava uma congregação de mulheres solteiras ou viúvas, de boas famílias, que viviam em comunidade, as "béguines", ajudando idosos e levando uma vida religiosa sem, no entanto, fazerem votos.
 


A porta fecha-se à saída e, para o mal ou para o bem, regresso ao século 21.