sábado, dezembro 11, 2010

Türkiye'deki fotografçılık

O que fazem 20 estrangeiros na pouco turística cidade turca de Eskisehir? Passeiam-se de gôndola nas águas do rio Porsuk? Deleitam-se nos ambientes aquecidos dos hamans? Planeiam uma excursão a Midas?
Nada disso! Participam num workshop de fotografia na EFSAD.

E é vê-los entusiasmados a beber cada palavra das excelentes aulas teóricas de Erdem Cetintas, empenhados a deambular pelas ruas em busca do melhor ângulo e a pôr em prática o que aprenderam ou atarefados em volta dos computadores a escolher e editar as imagens.

E no final, cansados mas orgulhosos das fotografias que inauguraram a galeria de exposições da prestigiada Universidade de Anadolu.

sexta-feira, novembro 26, 2010

Com a mentira não me enganas...

Uma bela manhã, daquelas em que nos levantávamos às 5h e a passávamos na estrada a ver a paisagem desfilar sempre igual, Russel tirou-nos da sonolência com uma paragem brusca do camião.

“Tenho-me esquecido de vos mostrar isto”, disse, apontando para uma bomba de água movida a vento. "Como sabem o interior australiano pode ser quente, muit, muito quente. Pois bem, para evitar que o gado morra de calor, os agricultores criaram este sistema de refrigeração automática. Quando a temperature ultrapassa os 35º o motor entra em funcionamento e faz girar as pás para refrescar as vacas.”

LOLLOLLOLL…

Se o objectivo era acordar-nos a rir, consegui-o.

Esta é uma das petas que os aussies tentam impingir aos turistas, mas há mais:

“Este animal (Russel referia-se às vacas tipo zebu, com uma bossa no cachaço) é um “camoo”, um híbrido que resulta do cruzamento entre uma vaca e um camelo e que consegue resistir aos longos períodos de seca do outback.”

Pois…

Os caranguejos atarefavam-se na praia de Cape Tribulation, escavando buracos, saindo de uns, escondendo-se em outros, deixando centenas de pontinhos nas areias molhadas, fazendo bolinhas de areia que ficavam espalhadas pela praia.

“É um efeito engraçado, não é?”, comentava Ron. “Sabem que foram estes caranguejos quem inspirou a arte aborígene?”

Claro, Ron, principalmente os aborígenes do outback interior!











segunda-feira, novembro 01, 2010

De cowboy a Camões

Avançávamos devagarinho, medindo os passos, um pé cautelosamente após o outro. A água chegava aos joelhos mas estávamos avisados que a entrada na zona em que não tínhamos pé far-se-ia abruptamente. Mais um passo, outro, mais outro e ... splash!

Ernie, que seguia à frente, já tem água pelo pescoço e esbraceja para se manter à tona enquanto, entre gargalhadas, tenta alertar-nos para o evidente mergulho.
Splash, splash, splash... Um a um caímos no rio e é a nadar que empurramos até à outra margem as caixas de esferovite onde as mochilas e roupas estão a salvo.



Por instantes não somos nós, somos crianças, somos cowboys que montados nos cavalos tentamos alcançar terra firme fugindo da chuva de flechas que os índios disparam.

De volta a solo firme e à realidade temos pela frente hora e meia de caminhada com algumas passagens mais delicadas, até chegarmos à visão da cascata e piscina natural que nos esperam para um banho merecido.

As lajes grandes e lisas convidam ao descanso, o sol aquece o corpo que a água refrescou, mas são horas de partir, de trepar as mesmas rochas, de fingir que os joelhos não doem, continuar a saltar de pedra em pedra e regressar ao rio.

Ah... mas desta vez já não sou cowboy. A caixa de esferovite deixa entrar muita água e é com ela no ar que atravesso o rio, qual Camões a salvar os Lusíadas.

sábado, outubro 23, 2010

Kimberley é só garganta(s)!

Da região de Kimberley não se pode dizer que seja um coração aberto, pelo contrário. Duro, empedernido, inacessível na sua maior parte, esconde-se em montanhas pedregosas que só as gargantas, brechas que os rios rasgaram na rocha, criaram recantos que terminam numa piscina natural e uma cascata para, de novo, impedirem qualquer progresso. Percorremos algumas, das centenas que devem existir.

Na sagrada Windjana sentámo-nos entre paredes vermelhas e negras, no areal junto ao lago, a ver a noite cair tranquila, sob o olhar atento de alguns inofensivos freskies.

Nas Bell derrapámos (e caímos) nas lajes que a chuva tornou perigosamente escorregadias, subimos e descemos colinas, vimos árvores de folhas "sogra-e-genro" e formigas de abdómen verde.

Nas Galvin atravessámos um carreiro de floresta para chegar às pinturas aborígenes que representavam o espírito que traz a chuva.

Nas Chamberlain, já no parque de El Questro, embarcámos num batelão que nos levou por entre falésias douradas e nos fez descobrir os "7 spots archers", peixes que se habituaram a apanhar os insectos lançando um poderoso jacto de água.

Nas pedregosas Emma pusemos os pés sobre as marcas que o fluxo das águas deixou sobre lajes milenárias, deliciámo-nos com os reflexos das falésias iluminadas.

Nas El Questro lutámos com passagens complicadas, escorregámos nas pedras que rolavam sob as nossas botas.


Em todas elas atravessámos rios sobre pedras em equilíbrio instável, trepámos rochas, saltámos pedras e chegámos ao fim certos de merecer o banho, por vezes fresco, por vezes frio, que aliviava os músculos desfeitos pelo esforço.

segunda-feira, outubro 18, 2010

Pegadas lusas

O campeonato do mundo de futebol não desperta o interesse dos australianos que preferem o rugby e o cricket. E, ao contrário do que sucede em boa parte do mundo, a referência a Portugal não tem como reacção pavloviana o nome de Cristiano Ronaldo.

Mas isso não significa que a pátria lusa passe desapercebida. Depois de dias no isolamento do outback chegamos a essas espécies de micro-oásis de civilização que são as road stations e mal acredito no que vejo. A foto de cores alegres que enche meia página de um dos jornais é-me familiar, muito familiar, mas ... mas, sim, é o Palácio da Pena que sobressai enorme na reportagem de duas páginas dedicadas ao turismo em Portugal.

Em Darwin cruzei-me com o Nando's, a cadeia de frango de churrasco e saladas que já tinha visto no Malawi e na África do Sul. Na zona de Cape York conheci John, que passeava um pólo, recordação de um torneio de golfe em greens portugueses; e Marilyn que me assegurou que o pai, historiador, tinha argumentos fortes que sustentavam que fomos "nós" os primeiros europeus a tocar solo australiano. E que em Sidney há mesmo uma semana portuguesa que celebra o feito e conta com a presença do cônsul português.

Invariavelmente o nome de Portugal provocava no meu interlocutor um arregalar de olhos genuinamente feliz, acompanhado de expressões do tipo "Uau! Portugal!" Nunca percebi o porquê deste espanto, até porque a conversa sobre o país parava de imediato.

Mas houve um caso diferente, o dia em que Ron olhou para mim com estranheza, como quem olha para um ser bizarro e, num tom sério e pausado, disse:
"Acho que nunca tinha visto ninguém de Portugal."


sexta-feira, outubro 15, 2010

Lagartices

Russel já tinha dito que os havia por perto do sítio onde colocámos as tendas mas que, se não nos aproximássemos demasiado, não havia problema. Fê-lo com aquele ar desprendido com que os australianos tratam estas coisas: “Uma taipan? (que é “só” a cobra mais mortífera que Deus colocou no planeta) Não há crise, se se cruzarem com uma mantenham-se quietos e deixem-na passar calmamente junto aos vossos pés.” E pensam com os seus botões que “lá estão os europeus a preocuparem-se com insignificâncias.”

Não sendo um genuíno dragão de Komodo nem exalando o cheiro pestilento que caracteriza o outro, o perentie que se passeava pelo nosso acampamento não deixava de ser impressionante. Confesso que me arrepiei quando, num momento de pausa após o almoço, o vi a pouco mais de um metro, entre as tendas, à procura de algum resto comestível.

Mas pelos vistos eu não encaixava nessa categoria e a lagartixa gigante, que devia ter mais de 2 metros, continuou a sua procura indiferente à perseguição fotográfica que lhe fiz.

Foi só à noite quando recolhemos às tendas, cansados das caminhadas pelas gargantas e terminado o serão à volta da fogueira que Russel, desta vez com um ar preocupado, nos levou a pensar de novo no réptil:

“Eles não fazem mal mas, mesmo assim, se saírem da tenda à noite, tenham cuidado, levem lanterna, não vão esbarrar com algum.”

domingo, setembro 19, 2010

I will be back

O filme que vi mais repetidamente é O Paciente Inglês. Mais vezes do que a Música no Coração, o que para alguém da minha geração, é notável. Revi-o ontem ao serão, com o mesmo prazer da primeira vez. Não é tanto o filme, a história, que me atrai, mas as imagens do deserto do Sahara, que, essas sim, tocam bem fundo.

Não há sítio no mundo, dos que conheço e, penso, dos que espero vir a conhecer, que mais me emocione do que o deserto. O espaço, o silêncio, a magia da luz a brincar nas rochas, o ritmo dos sulcos que o vento desenha na areia, o esplendor dos céus de milhares de estrelas a consciência da minha insignificância.

A paixão começou, por acaso, numa noite dormida à beira de uma pista e do deserto, algures em Marrocos. Seguiu-se a Tunísia e a Argélia e a Líbia e o deserto branco do Egipto e novamente a Argélia.


Numa saborosa evocação aqui ficam imagens do filme , os relatos dos "meus" dois últimos desertos: o branco do Egipto e o vermelho da Tadrat argelina e a frase que digo para mim mesma no final de uma viagem no deserto: "I will be back."
Inshalah!


quarta-feira, setembro 08, 2010

Tunnel Creek

Está escuro como breu, a água fria chega-nos aos joelhos e nem a luz das lanternas nos deixa prever onde nos levará o próximo passo. Um splash faz-nos parar: entre gargalhadas o primeiro da fila avisa que o chão rochoso lhe fugiu debaixo dos pés e que avança agora sobre areia, com água pela cintura.
Splash, splash, splash, ... um a um, sem surpresas, deixamo-nos afundar e continuamos a marcha.

Se as luzes das lanternas fossem mais fortes veríamos com pormenor as imensas estalactites que pendem do tecto. Ou talvez víssemos alguns peixes ou crocodilos (pequenos e inofensivos, valha-nos isso) que aqui abundam. Mais do que ver, sentimos o cheiro das colónias de morcegos que fazem desta caverna a sua casa.

O sítio chama-se Tunnel Creek e foi, há mais de uma centena de anos, o esconderijo de Jandamarra, o aborígene que liderou uma longa insurreição contra a colonização europeia. Conhecia com detalhe cada recanto da região e era de tal modo hábil a esconder-se e a despistar os perseguidores que até mesmo os membros das tribos aborígenes achavam que o seu corpo era a manifestação física de um espírito que habitava as águas geladas e negras da caverna e que, por isso, seria imortal.

Enganaram-se. Após 3 anos de guerrilha, de luta pela defesa das suas terras e gentes, foi junto a Tunnel Creek que Jandamarra perdeu a vida. A sua cabeça cortada foi exibida como prova da morte e enviada, como troféu, para Inglaterra.


sábado, setembro 04, 2010

Kings of the road

Nelson já esteve em Portugal, já jogou golfe no Estoril. Do nosso país trouxe boas recordações: as gentes, a comida, o vinho verde. Más, só a irresponsabilidade que encontrou nas estradas.
Nelson, como Phil, é condutor de road-trains, os enormes camiões que, como os cangurus, fazem parte do outback australiano, e são os responsáveis pelo abastecimento das comunidades dos Territórios do Norte e da Austrália Ocidental.

Aproximam-se velozes, envoltos numa nuvem de poeira e desaparecem mergulhados em mistério. Os que circulam nas estradas e pistas públicas chegam aos 54 metros (perdão, aos 53,5 metros que o rigor australiano é para ser levado a sério) mas nas pistas privadas das grandes herdades atingem o dobro.

Para ultrapassar um deles é necessária uma recta com, pelo menos 1 km, mas os outros condutores são aconselhados a não o fazer, a segui-los a uma boa distância ou, melhor, fazer uma pausa numa road station. A deslocação de ar que provocam é tão grande que os carros pequenos encostam na beira da estrada assim que os vêem aproximar-se e cruzam os dedos para que nenhuma das pedras que projectam lhes esmague o pára-brisas.
Diz-se que os condutores destes monstros se alimentam de anfetaminas, que só assim aguentam vários dias sem dormir, quem sem elas a Austrália ficaria paralisada.

Mas são considerados os mais simpáticos e respeitadores das regras de trânsito do país.
Não admira que Nelson não tenha apreciado as estradas portuguesas.




quarta-feira, setembro 01, 2010

A estrada do bife


Uma tira vermelha e poeirenta, longa de 660 quilómetros, rasga a paisagem inóspita do Kimberley. Chama-se Gibb River Road mas os locais conhecem-na por Beef Road, por atravessar explorações de gado de dimensões inimagináveis.

À volta quase tudo é desolador: eucaliptos sem fim que se erguem numa terra seca e árida, zonas pedregosas, rios que só na época seca é possível cruzar e, mesmo assim, com cuidado.

Mas basta tomar as pequenas e difíceis pistas que nela convergem para descobrir as jóias que a tornam famosa. E vemos rios de água cristalina que serpenteiam por entre gargantas profundas, rochas de formações singulares, cascatas que nos refrescam do esforço de caminhadas exigentes.
E ficamos em silêncio diante de pinturas aborígenes de milhares de anos, que nos contam um tempo, o dos sonhos, quando não havia homens e os espíritos criaram o mundo.



domingo, agosto 29, 2010

A lenda da Praia da Ursa

Reza uma lenda que há muitos muitos anos, quando um manto de gelo cobria a terra, vivia aqui uma ursa com os seus filhos. Quando o degelo, começou todos os animais se afastaram da costa e procuraram protecção em zonas mais elevadas, excepto a ursa que sempre ali vivera e ali queria morrer.

Irritados os deuses transformaram-nos na enorme pedra e nos pequenos rochedos que ainda hoje se podem ver e que dão o nome à praia.