Segunda-feira, Maio 05, 2008

Ils sont fous....

Um percurso de autocarro alterado devido a obras e dou comigo junto à Périphérique, uma espécie de CRIL parisiense. Zona descaracterizada, cheia de torres de apartamentos, enormes e sem alma, tristonha, vazia de gentes e de interesse.

Procuro uma estação de metro e eis que, sem nada que o fizesse prever, Obélix pragueja. Surpresa! Sem querer, sem saber, dou comigo na Rue René Goscinny, o pai de Astérix, Lucky Luke, Oumpah-pah e Iznogoud.

Uma livraria, balões de BD pendurados nos candeeiros. Pouca coisa, talvez, mas, a dose de poção mágica suficiente para transformar um recanto sem graça no abrir de livros tantas vezes saboreados.

Domingo, Maio 04, 2008

De olhos em bico

Apetece-lhe um khao guai (pequeno almoço tailandês), um prato de laap (salada de carne, do Laos) ou de pakon char poat koun (camarão com milho, do Cambodja)? Basta dirigir-se ao 13eme Arrondissement, mais conhecido por Bairro Chinês de Paris.
Junto às fábricas do que foi um bairro industrial dos arredores ergueram-se descomunais torres de apartamentos, residência dos muitos operários que nelas trabalhavam. O crescimento da cidade forçou a mudança da zona industrial levando consigo a maior parte dos habitantes. Apesar das rendas baixas, aos parisienses não agradou aquele bairro de arranha-céus sem alma e foram os desalojados e refugiados da China, Cambodja, Vietname, Laos e Tailândia, que, a partir dos anos 70, os ocuparam.

Hoje não é apenas um bairro, mas uma "cidade" asiática de 30.000 pessoas, uma comunidade quase autónoma onde é possível trabalhar, fazer compras, comer, viver, sem sair do ambiente oriental.
Na base da torres de 30 andares as lojas e restaurantes, os salões de chá e supermercados, ostentam placas com ideogramas chineses, tailandeses... O ano novo chinês é festejado "à grande e à francesa" com danças, desfiles, petardos e dragões. Há templos budistas, taoistas e pagodes, quase escondidos no meio de um parque de estacionamento ou num canto recatado de uma rua estreita.

O supermercado Tang Frères é um ícone, visitado diariamente por 10.000 pessoas (mais do que o Centro Pompidou). Para nós, ocidentais, incapazes de ler as etiquetas da maior parte dos produtos, é uma festa para os sentidos. Peixes desconhecidos, frutos e legumes de cores e formas insuspeitadas, cheiros invulgares e fortes e a música de fundo das muitas línguas que por lá se falam.

E, à saída, não são poucos os que fazem pintar o seu nome em caracteres chineses. Para dar sorte, dizem.

Sábado, Abril 26, 2008

Olhó passarinho

Nasceu o Olhó Passarinho, irmão mais novo do Mochila às Costas. Este novo blogue não é, ao contrário do que possa parecer, uma montra de fotografias mas apenas uma tentativa de me obrigar a fotografar sistematicamente. Uma fotografia por semana, é tudo o que me peço. Um passo na tentativa de vencer o marasmo em que caí ao limitar a actividade fotográfica a pouco mais que às viagens. Fica aqui a primeira. As próximas poderão ser vistas seleccionando o link ao lado.

Sexta-feira, Abril 25, 2008

Utile Dulci

Incomodada com o sabor desagradável de um medicamento que tomava, Maria Antonieta queixou-se ao farmacêutico da corte, Suplice Debauve. Nem mesmo o chocolate quente que bebia atenuava o mau gosto. Pelo contrário, parecia que o calor da bebida acentuava mais o trago horrível do remédio. Debauve teve a ideia de fabricar um preparado sólido, à base do mais puro cacau, onde o medicamento ficava disfarçado.
Maria Antonieta perdeu a cabeça e pediu mais variedades ... e surgiram misturas com canela, flôr de laranjeira, jasmim, café, mel e até pedacinhos de ouro.

Depois da revolução o farmacêutico abriu a primeira loja, a dois passos do Louvre, e inscreveu na fachada "Utile Dulci" - juntar o útil ao agradável.
O interior da boutique é hoje classificado como monumento histórico da cidade de Paris e simboliza um templo a que não faltam colunas e um balcão em forma de meia lua.

Não sendo, ainda possível colocar sabores num blogue fica entregue à imaginação de cada um deixar dissolver na boca um merengue finíssimo recheado de pedaços de amêndoas e avelãs caramelizadas, envolvidos numa espessa camada de chocolate negro, amargo e aveludado...


Fica também uma tradução, no mínimo delirante, de um site de informação.


Debauve & Gallais - Rue des Saints Pères, Paris

Quinta-feira, Abril 10, 2008

Au Lapin Agile, cabaré artístico

Mesmo em frente da vinha de Montmartre uma pequena casa côr-de-rosa com um coelho pintado na parede chama a atenção. Trata-se do Lapin Agile, o mais antigo dos "cabarés artísticos" de Paris.

O assassínio dos proprietários deu à casa o nome inicial, Cabaret des Assassins, nome que se manteve até 1875, quando o pintor e caricaturista André Gill desenhou um coelho a saltar de uma caçarola. De "Le lapin à Gill" ao actual "Lapin Agile" foi... um saltinho.

Local de encontro de músicos, pintores, cantores e boémios, hoje, como antigamente, recita-se, improvisa-se, cantam-se ou desafinam-se músicas próprias ou de outros. Hoje, como antigamente, sem microfone ou sistema de som, com o sabor de outrora.

Uma peça de teatro do americano Steve Martin, "Picasso at the Lapin Agile", colocou Einstein e Picasso lado a lado no cabaré a discutir o valor do génio e do talento.
Picasso foi, como se deduz, um dos habitués da casa, como o foram Utrillo, Braque, Brassens, Claude Nougaro. Conta-se mesmo que Picasso chegou a pagar um jantar com um quadro - Au Lapin Agile.

Ao que parece hoje as refeições são bem mais baratas.

Domingo, Março 30, 2008

Uma vinha no coração de Paris - "Clos de Montmartre"

Não são as cidades os meus espaços de eleição mas, como em tantos aspectos da vida, há excepções, e Paris é uma delas. Lá estão, claro, exposições, museus, e monumentos únicos mas é a pé, a deambular pelas ruas, que me sinto verdadeiramente bem, que fico com a ilusão de entrar um pouco na alma da cidade.
Parto ao acaso, acompanhada ou sozinha, máquina fotográfica a tiracolo, perco-me nas ruas e bairros, descubro e redescubro cantos e curiosidades. Como uma vinha a dois passos da Basílica do Sacré Coeur e da Place du Têtre.

Uma vinha a sério que se aperta em 1500 m2 de um terreno a norte da Basílica e que existe desde o século 15, altura em que produzia um vinho de fraca qualidade de tal modo diurético que se dizia que: "C' est le vin de Montmarte, qui en boit pinte pisse quarte" (Nota: as medidas pinte e quarte equivalem, respectivamente, a 67 cl e 93l).
A expansão de Paris ameaçou a vinha que foi salva em 1929 graças à dedicação do desenhador Francisque Poulbot, mas só a partir de 1996 a qualidade do vinho melhorou.
No primeiro domingo de Outubro a comunidade empenha-se nas vindimas, em ambiente de festa que inclui música e desfiles. Pela raridade, mais do que pela qualidade, as cerca de 1700 garrafas de "Clos de Montmartre" produzidas em 2007 foram vendidas a 45 euros cada.

À nossa!...

Quinta-feira, Março 27, 2008

Era uma vez o gigante Isoré...

Reza a lenda que Isoré, um rei mouro que governou Coimbra, atravessou os Pirinéus para tentar conquistar Paris. Pelo caminho fez uma paragem em Orléans onde ficou durante algum tempo e se entretinha a assaltar e matar os peregrinos que se dirigiam para Santiago de Compostela. Foi morto num combate com Guilherme d' Orange e enterrado no lugar onde caiu, pois era demasiado grande e pesado para que o pudessem transportar. O local passou a chamar-se Tombe d' Isoré e, mais tarde, Tombe Issoire.


A 19 de Maio de 2007 a lenda materializou-se na parede da escola infantil da Rue de la Tombe Issoire, em Paris, graças à imaginação das crianças da escola e às mãos da artista Corinne Béoust.

Ecoutez cette histoire qu’on nous a racontée
C’est l’histoire d’un géant qu’on appelait Isoré
Dans le Temps Isoré était vraiment méchant
Il passait tout son temps à tuer beaucoup de gens (bis)

Alors les gens de la ville se sont vraiment fâchés
Et puis, ils ont fini par chasser Isoré
Tout seul il est resté oh combien désolé
Alors il s’est caché dans la Grande-Vallée (bis)

Et le temps a passé, il s’est bien ennuyé
Il a réfléchi et puis s’est amendé
Il a promis juré de ne plus recommencer
Aux enfants de l’école, une lettre a envoyé

Les enfants d’Tombe-Issoire furent bien étonnés
Un jour de recevoir cette lettre démesurée
Au géant repentant appelé Isoré
Ils ont bien voulu tous donner leur amitié (bis)

Pour ne pas oublier cette histoire du passé
Sur les murs de l’école, nous l’avons dessinée
Et en bas du dessin nous sommes fiers de signer
Les enfants de l’école du géant Isoré (bis)

(cantada pelos alunos da escola no dia da inauguração)