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terça-feira, junho 22, 2010

Fronteira Bolívia-Argentina

São formigas humanas, não andam, correm, não passam pelo controle de alfândega mas ninguém as impede, ninguém lhe liga, ninguém as vê. Não existem. Transportam bens entre os dois países, a Argentina e a Bolívia. Cargas enormes, volumosas pesadíssimas, de arroz, milho, cimento, móveis... O esforço vê-se-lhe no rosto, nos olhos vazios, cansados.

Não param, andam depressa, conseguem mesmo correr ajoujados pelos 50 ou 70 quilos que levam às costas. Aceleram ainda mais no regresso, para conseguir apanhar nova carga que trarão, derreados, mas sempre sem parar, sem descanso.

São homens e mulheres e competem indiferenciadamente pelo transporte do maior número de quilos, para levar para casa uns magros bolivianos que permitam colocar mais qualquer coisa na mesa dos muitos filhos.

A 2 ou 3 metros os fiscais da alfândega afadigam-se a vistoriar os sacos de quem muda de país. E ali ao lado o frenesim continua, sem cessar, num formigueiro humano, desumano.
Com um nó na garganta deixamos Villazon e entramos em Quiaca, saímos da Bolívia e regressamos à Argentina, fechando o ciclo e o relato da viagem.

(Um vídeo da fronteira aqui )




quinta-feira, abril 15, 2010

A lenda do Cardón

Os cactos são uma presença constante no noroeste argentino, como em todo o Altiplano. Tudo neles tem utilidade. Ainda hoje os povos andinos aproveitam a sua madeira seca para a construção ou para a criação de objectos de uso comum ou de artesanato. A sua flor, a tuna, que apenas se abre nas vésperas de dias de chuva, funciona como uma estação meteorológica caseira.
Os seus frutos eram um alimento de tal modo importante na dieta dos povos índios que fornece indicações preciosas aos arqueólogos: uma grande concentração de cactos pode resultar da acumulação de sementes ingeridas e expelidas pelos elementos de uma comunidade e indicar, assim, uma zona que merece ser escavada pois aí deve ter existido um povoado.

São várias as espécies de cactos que encontramos na zona mas o "cardón" destaca-se por parecerem representar o tronco e os dois braços de um homem. E não será?

Diz uma lenda argentina que há muitos anos a filha do chefe de uma aldeia se apaixonou por um lindo rapaz. A história não chegaria aos nossos dias se o rapaz não fosse bonito, cheio de qualidades mas de origem humilde. Unir-se à filha abastada do chefe era, por isso, impossível.
Desesperados os jovens decidem fugir mas são de imediato perseguidos pelo chefe da aldeia e por um grupo de habitantes. Em desespero pedem a ajuda de Pachamama que os transforma em cactos para que passem despercebidos aos olhos dos perseguidores. Por isso os cardóns têm uma forma quase humana.

segunda-feira, abril 12, 2010

Paleta do Pintor

Visto de longe o cemitério de Maimara, construído na encosta inclinada de uma colina, parece uma cidade em miniatura. Como se as campas fossem brinquedos de criança e formassem ruas por onde passam gnomos - os que prestam homenagem aos seus mortos e que a distância torna minúsculos.

Ao lado a montanha acentua a irrealidade. Os ocres, os amarelos, os tons pastel, misturam-se, entrelaçam-se, criando uma tela esborratada, a paleta de artista de que o Criador se deve ter servido para colorir a natureza em redor.

quarta-feira, abril 07, 2010

O reino das montanhas coloridas

Entramos na Quebrada de Humahuaca, um vale de 155 km que acompanha o curso do Rio Grande, seguindo os passos dos Incas que por aqui passaram na construção do seu império e dos conquistadores espanhóis que o utilizavam para escoar a prata da não muito distante Bolívia.
É, como toda a zona andina, uma região formada por montanhas de várias idades, e a diferença é visível, mesmo aos olhos de quem de geologia nada sabe, pois exprime-se por cores - dos vermelhos de 80 milhões de anos aos jovens brancos com apenas 3 milhões.

Na Quebrada de Humahuaca este aspecto é ainda mais visível pois aqui é possível encontrar uma enorme diversidade de cores num espaço reduzido e a Montanha das Sete Cores, junto a Purmarmaca, é disso um bom exemplo. Construída camada após camada, espelho dos movimentos telúricos frequentes, o desenho aprece ter saído da imaginação de um pintor.

Passamos pelo cemitério de Purmamarca e pelo seu curioso mausoléu da coca para nos embrenharmos neste mundo mineral assombroso. A pé descobrimos pequenos desfiladeiros, subimos colinas, maravilhamo-nos com as cores que a luz do fim do dia realça, uma caminhada suave que havíamos de refazer com outra luz e outras cores na manhã seguintes.

Bem vindos ao reino das montanhas coloridas!


domingo, dezembro 20, 2009

Salar argentino

A água das salinas reflecte os montes de sal, as pás e as picaretas, testemunhos do trabalho dos que ali passam o dia a carregar camiões a troco de uns reduzidos pesos.
Agora, que a faina terminou e o salar é "nosso", os hexágonos de sal ganham suavidade e alma com o sol poente que, minuto a minuto, lhe altera a côr.

Sem a dimensão e a magia de Uyuni, que revisitarei dentro de poucos dias, Salinas Grandes é de uma beleza incontestável, um mundo aparte, um oásis de tranquilidade.

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Tren de las Nubes

Páre, escute e olhe. Assim fizemos mas sabíamos de antemão que não era dia de passagem do único comboio que frequenta estes carrris, o mítico Tren de las Nubes.

O ramal faz parte da linha que ligava Salta, na Argentina, a Antofagasta, no Chile, construído para substituir as caravanas de mulas que penosamente abasteciam as minas de salitre chilenas. O engenheiro norte-americano Ricardo Murray deu início às obras em 1921 mas as dificuldades impostas pela geologia e pela morfologia do terreno, pela altitude e pelo clima foram tantas que só em 1948 foi possível fazer passar o primeiro comboio. Um pouco tarde demais pois a era do salitre estava já a terminar, fosse pelo esgotamento das minas ou do interesse económico, e as viagens terminaram também.

Só nos anos setenta os comboios tornaram a dar vida aos carris; ou, mais correctamente, o comboio, pois é apenas um. Em vez de víveres transporta turistas, de Salta a Polvorilla, numa viagem de ida e volta de 434 km, 15 horas e muitos dólares. Lá dentro impera algum conforto: vagão restaurante, serviços de guia em várias línguas, animação garantida nas estações onde pára. Mas o melhor é a paisagem, o acidentado do terreno, as pontes, a linha que se contorce em ziguezagues impossíveis, as montanhas cobertas de neve.

Um desvio de linha em Mina permite trocar a posição da locomotiva que daí até ao finaldeixa de puxar as carruagens para as empurrar montanha acima até aos 4220 metros do famoso viaduto de Polvorilla, um arco de ferro que se eleva a impressionantes 63 m sobre uma paisagem desoladora.

É proibido atravessá-lo a pé, mas, porque hoje não é sábado e o tren de las nubes não pássa, ninguém ligou ao aviso. O vento forte empurra-nos para a beira onde um varandim, demasiado ferrugento e com pedaços inexistentes, perdeu há muito a função protectora que deve ter tido e é pelo meio dos carris que percorremos os 224 metros. Lá em cima o frio, o vento, o ar rarefeito acentuam o isolamento e sentimo-nos a pairar no vazio, verdadeiramente nas nuvens.

domingo, dezembro 06, 2009

Abra de los Chorillos

Regressamos da desolação gelada de Tolar Grande pela Pista das Sete Curvas, a mesma que havíamos percorrido na véspera. Agora, sob o sol forte da manhã, as rochas que pareceram negras, as areias que ao luar brilharam como prata, perderam em mistério o que ganharam em côr. Descobrimos uma terra avermelhada como as areias do Sahara, pedras castanhas, arredondadas pelo vento. E o céu azul, o pó.

Não fossem os picos cobertos de neve, lá longe, e dir-me-ia no Tassili do Hoggar argelino. A pé, que é assim que gosto de sentir o deserto, percorro um labirinto de pequenas montanhas rochosas. Fecho os olhos, inspiro o ar ainda fresco da manhã, encho os pulmões de felicidade, dos sonhos que emprestam o nome a este pequeno vale da Puña argentina.





terça-feira, dezembro 01, 2009

Os meninos de Llullaillaco

Cinco séculos depois de sacerdotes incas terem sacrificado três crianças, uma equipa de argueólogos encontrou-as, congeladas, quase perfeitas, acompanhadas de inúmeros textéis e artefactos. Jaziam a 6740 metros, no cimo do vulcão Llullaillaco, tão perto da linha de fronteira Argentina-Chile que foi necessário um GPS para determinar a que país pertenciam: Argentina.
E é no Museo Arqueológico de Alta Montaña, em Salta, que se encontram e são expostas ao público, alternadamente, para evitar que se degradem.

À nossa frente, dentro de uma redoma com atmosfera e temperatura controladas, vigiada por guardas que impedem qualquer fotografia, está a Niña del Rayo, assim chamada por ter sido atingida por um raio que lhe queimou uma orelha e parte do ombro e do peito. Disseram os arqueólogos que ainda cheirava a queimado quando a retiraram.
Duas tranças caem de um e do outro lado da cabeça. A boca, ligeiramente aberta, as mãos que agarram a roupa como que para se proteger do frio, o ar tranquilo de quem adormeceu em paz. Teria uns seis anos...

Mais velha era a Doncella, de 14 anos, embrulhada numa túnica que dizem ser magnífica e que denotava uma condição social elevada. Um toucado de penas impressionantemente intacto completava a indumentária.

A terceira múmia é o Niño, de 7 ou 8 anos, com roupas suficientemente grandes para que pudesse crescer. Junto ao corpo, dois pares de sandálias para a longa caminhada.
E oferendas aos deuses: miniaturas de lamas, figuras vestidas com tecidos que ainda conservam as cores vivas, ornamentos preciosos, outros com penas que atravessaram 500 anos sem um único defeito.


O que terão sentido estas crianças ao dirigirem-se para o local que seria o seu último poiso na Terra, ao serem vestidas com as melhores roupas que alguma vez tinham usado? Ao saberem que tinham sido escolhidas como oferendas aos deuses, embaixadoras para o outro mundo? Sabê-lo-iam?

Não devem ter sofrido pois os seus rostos estão tranquilos, como se a qualquer momento pudessem acordar para a vida. A altitude, o frio e talvez a alcoólica chicha devem ter tornado suave a transição entre os dois mundos.

Três crianças que morreram crentes na eternidade e que, de certo modo, a atingiram pois o ADN sobreviveu nos seus órgãos e sangue congelados.


*****

As fotografias que acompanham este post foram retiradas do diaporama do The New York Times.

No site do MAAM encontra-se a história das crianças-múmia e um diaporama com alguns dos objectos que acompanhavam as crianças.

A descoberta das múmias e muito mais nos vídeos da National Geographic Society: 1 , 2 , 3 , 4 , 5 e 6.

domingo, setembro 27, 2009

Just a Gigolo

Continuamos na mítica Ruta 40. A paisagem adoça-se com o amarelo dos campos, com a serenidade que os cactos emprestam às colinas. Mas logo depois a pista estreita-se, contorce-se em curvas apertadas que nos transportam montanha acima.

O gelo acumula-se nas bermas, o ar cada vez mais rarefeito torna penosa a progressão dos jipes que só a custo vencem o desnível e o piso esburacado.

A noite aproxima-se , as montanhas vestem-se de gala. No céu, os vermelhos do pôr-do-sol cedem o lugar aos azuis rosados do crepúsculo. A lua aparece e no nosso jipe a chegada aos 4895 metros do Abra del Acay faz-se acompanhando desafinadamente Louis Prima que canta "Just a gigolo".

terça-feira, setembro 22, 2009

Álbum de Fotografias - Buenos Aires

O primeiro álbum de fotografias da viagem pela Argentina, Bolívia e Chile pode ser visto aqui ou na margem do blogue em Álbum de fotografias /Buenos Aires.

domingo, setembro 20, 2009

O Faroeste argentino

Se calhar é um sonho, um sonho lindo onde as montanhas sucedem aos vales e estes às gargantas apertadas, às rochas de formações bizarras, aos desfiladeiros. Um rio com pouca água serpenteia indolente na aridez da paisagem e as poucas árvores são de um verde gritante que contrasta com os tons ocre das montanhas.

Ou então é um filme e um grupo de índios pintados para a guerra vai descer, numa cavalgada alucinante e no meio de gritos e de poeira, uma das colinas semeadas de cactos e atacar os cowboys que julgamos ser.
Ou serão alucinações provocadas pela altitude a que andamos?

Sonho, filme, alucinações.. certo é que tanta beleza parece irreal. Que bonito é o faroeste argentino!

domingo, setembro 06, 2009

Bê-á, BA

A viagem seguiu as regras do alfabeto: a, b, c, Argentina, Bolívia, Chile. E começou pelo bê-á-bá, BA, de Buenos Aires, a capital mais europeia da América latina. Não admira, pois, dizimados os indígenas pelos descobridores espanhóis, raros são os seus habitantes que não têm origem espanhola, italiana, alemã. Mas nem por isso é uma cidade homogénea, ganha alma na diversidade dos seus bairros.

O luxuoso Palermo com casas apalaçadas e relvados bem tratados onde a alta sociedade passeia os seus cãezinhos aperaltados. O popular La Boca, de casas coloridas e a animação do tango dançado à porta dos restaurantes, dos pintores de rua, dos deuses Gardel e Maradona.

O sofisticado Recoleta e o seu cemitério onde gatos bem nutridos se passeiam junto à campa da venerada de Evita Peron. O típico San Telmo de com as passagens que escondem galerias de antiquários e bric-à-brac, as "tangotecas".
E os cafés, o café e ritual do mate, as feiras e os mercados, os protestos, as mães de Maio.

Buenos Aires. Tanto para ver e tão pouco o tempo...