segunda-feira, abril 15, 2013

A menina dança?


Ao pequeno almoço alguém anuncia a leitura fresca do termómetro: -31º. Está frio mas a ausência de vento e a humidade reduzida tornam as temperaturas muito mais suportáveis do que alguma vez imaginei. Mas escusado será dizer que, mais tarde, soube muito bem estar do lado de dentro da parede envidraçada do spa a "olhar" o contraste entre o aspecto gélido da pista de ski e a água morna da piscina.


O frio intenso que se acentuou com o cair da noite e a atmosfera limpa arrastou-nos para a rua, e, maravilha!, um rasto verde sobressaía no escuro, uma aurora boreal a pintar o negro do céu. Algures, diz a lenda, uma raposa varre a neve com a cauda e faz saltar faíscas.

Os amarelos e vermelhos, o baile das luzes, que esperava ver, faltarama chamada; o espectáculo foi discreto, quase tímido, mas, que importa?, ela estava lá e com ela a emoção da minha primeira aurora boreal.

Até qualquer dia, menina Aurora?


quinta-feira, abril 11, 2013

Sempre a abrir!

Ontem ouvimo-las à distância, uma zoada constante que fere o silêncio da paisagem e incomoda.
Mas ... isso foi ontem. Hoje, que é a nossa vez de as conduzir, a música é outra e bem mais agradável.


Vestidos os fatos que nos fazem parecer o boneco da Michelin,  escondidas atrás do capacete, até parecemos experientes motards das neves. Uau!

Primeiras instruções, primeiros solavancos, que a sensibilidade do acelerador de mão exige habituação, concentração a 100% e força, muita força para manter a mota na pista, para fazer as curvas sem sair dela. 

 
Mas depressa nos habituamos e pouco depois já acelarávamos por entre paisagens surreais, árvores como fantasmas abatidos pelo peso da neve, céu azul e uns agradavelmente revigorantes -15ºC.

Vruuuuuuuuuuuuuuummm...

sexta-feira, março 15, 2013

De raquetes nos pés

 

De joelhos, uma ao pé da outra, as duas crianças começaram a quebrar o gelo. Bem depressa apareceu uma superfície verde, de um verde muito escuro. Era água, água que se cobria quase logo de uma fina camada de gelo.
Agora só nos resta esperar, — disse Grichka.
(René Guillot, in Grishka e o seu urso)


Foi o que fizemos . Não por muito tempo, diga-se. Ultrapassada a dificuldade de furar 70 cm de gelo, à custa de (alguns!) braços e uma broca, depressa nos apercebemos que os peixes não se deixavam seduzir pelo ar de brinquedo da caninha de pesca que nos puseram nas mãos. E a paisagem à volta merecia todos os nossos olhares.

 
O resto do grupo secundou-nos na devolução dos engenhos piscatórios dignos do Toys "r" Us e as raquetes pisam agora os caminhos feitos de neve que sobem e descem as colinas da floresta. E se nos trilhos a progressão é fácil, fora deles o fácil é enterrarmo-nos até aos joelhos, mergulharmos na neve fofa e ficar à espera de uma alma caridosa que nos ajude a regressar à posição vertical.

Apesar do frio, suamos na subida até à cascata congelada, que não nos consegue convencer dos benefícios de um duche gelado.


Ao longe os pinheiros banhados por um sol dourado marcam a fronteira russa ainda marcada pelos tempos da guerra fria onde até o tempo para atravessar a extensa terra-de-ninguém é controlado (o que acontecerá a quem o exceder?)

 (foto RCC)
A sol já está fraco quando regressamos à base e arrumamos as raquetes. Amanhã será outro dia, outra experiência.

quinta-feira, fevereiro 28, 2013

A marca amarela

Cruic, cruic, o trenó desliza sobre a neve fresca. Desvio o olhar da pista para ver a paisagem banhada pela luz dourado do sol poente que parece escorrecer desde a copa das árvores até ao chão imaculado.
E o trenó continua a avançar ao ritmo cadenciado de Kaapo, a rena.

A custo esqueço a beleza da paisagem e concentro-me na procura. A marca amarela, algures no branco da lapónia finlandesa, a marca que Rutix e RCC me garantiram existir.
O frio nas mãos, as pestanas cobertas de gelo anunciam a descida da temperatura mas nada parece incomodar Kaapo, que trota sem hesitação.

Por fim encontro-a, o amarelo prometido a sobressair da neve.
Páro o trenó, dou ao animal o merecido descanso, abro a porta e peço:

 "Um hamburguer de rena, por favor."

segunda-feira, fevereiro 25, 2013

A preto e branco

  
Os 15º negativos que nos esperavam no aeroporto de Kuusamo não impediram as fotos da praxe junto ao marco que assinala os 66º33'44''de latitude norte a que chamamos círculo polar ártico. Agora sim, sentimo-nos chegadas à lapónia finlandesa!

Ao longo do longo caminho que nos deixará em Salla deliciamo-nos com pormenores que para nós quase têm cheiro a novidade,tudo parece ter outro encanto, a neve nos ramos, nas caixas de correio, os fios de eletricidade que resistem ao peso extra.
"Nem sempre", havia de nos dizer Terttu, a nossa anfitriã. "Por vezes o peso é tal que os fios cedem e ficamos alguns dias sem energia elétrica. E sem aquecimento.Temos de ter sempre uma boa reserva de lenha. Sem ela e sem eletricidade, não seria difícil a temperatura interior descer aos -30."
Brrrr...

Mas por enquanto, no quentinho do autocarro, o frio é apenas um número. O cenário desfila como um filme antigo, o solo confunde-se com o céu, também ele branco, as árvores de tronco escuro empertigam-se como soldados na parada, quase nada quebra a monocromia da paisagem.

segunda-feira, fevereiro 04, 2013

domingo, fevereiro 03, 2013

A caminho de Salla


Em Paris, à espera do vôo de amanhã que, bem cedo, nos vai levar até Salla, o pontinho vermelho do mapa, junto á fronteira com a Rússia.

quarta-feira, janeiro 16, 2013

Basta de dizer "Um dia..."

Há cerca de 30 anos fiquei de olhos pregados numa cena do filme "Local Hero" . Um céu como nunca tinha visto, uma tela viva onde azuis, verdes e vermelhos dançavam ao som da música de Mark Knopfler. 
E lá estava Mac, tão enfeitiçado como eu, numa cabina telefónica a ligar para o patrão a descrever o que via: uma aurora boreal.

foto:http://www.arcadedarwin.com/2012/10/11/local-hero-um-filme-genial/

A magia daqueles instantes calou bem fundo cá dentro  com ela a vontade de , um dia, poder assistir ao vivo ao que acredito ser um dos mais belos espetáculos  que a natureza pode oferecer.

Jack London despertou-me para os cães e os trenós, as páginas da revista da Natinal Geographic mostraram-me a deslumbrante e brutal Iditarod, Nicolas Vanier levou-me no seu trenó nos 8000 km da sua travessia do Canadá. E os trenós de cães juntaram-se às auroras boreais.
Um dia...  

 foto: http://www.interestingfacts.org/fact/iditarod-facts

Finalmente esse dia chegou, o dia em que deixei de dizer: "um dia..."
E assim, no início de fevereiro parto para o norte da Finlândia, acima do círculo polar ártico, junto à fronteira com a Rússia, para uma semana de atividades várias: trenó de cães, de renas, moto de neve, e o que mais se verá.

E porque as coisas boas da vida são ainda melhores se partilhadas, foi bom saber que a Rutix e a RCC responderam ao desafio.






Oxalá as auroras nos brindem com a sua presença mágica, oxalá as temperaturas mínimas não nos impeçam de aproveitar ao máximo.

terça-feira, janeiro 01, 2013

Janeiro

A água de Janeiro vale dinheiro.
Janeiro quente traz o diabo no ventre.



Lavoura das terras e preparação das culturas de Inverno, como a da batata. A poda na Lua Minguante é recomendável, mas nas figueiras, laranjeiras e macieiras os grandes cortes são prejuduciais. Enxertos no Crescente. Semear favas e ervilhas de variedades e de desenvolvimento rápido. Semear centeio, couve galega, nabo, cenoura, couves, ervilha, feijão, nabiça e tomate. Em estufa ou cama quente, plantar pepino, melão, pimento e abóbora. Em local definitivo cenoura curta, alho, cebola, alfaces, ervilha, alho-porro e salsa. Transplantar para viveiro: couve-flor, fava, feijão, etc. Na horta semear alface romana, couves repolho e sabóia, rabanete, fava ervilha e grão-de-bico. Colher couves, espinafre, etc. No jardim semear begónia, ervilha de cheiro, gipsófila, girassol, lírio, paciências, flor-de-lis. Colher violetas, amores-perfeitos, camélias, jacintos, túlipas, etc.

Almanaque Borda d'Água

segunda-feira, dezembro 31, 2012

terça-feira, setembro 04, 2012

Que Praga!


Chamava-se João Nepomuceno, era padre, e recusou-se a revelar ao rei Venceslau os segredos que a rainha lhe revelara em confissão. Como castigo foi atirado de uma ponte para as águas do Vlatva. Como prémio, fraca consolação, foi canonizado e a sua estátua é uma das que ornamentam a ponte Carlos, em Praga.

É cedo, apesar do sol já ir alto no céu de agosto. Partilho a ponte com alguns, poucos, japoneses, que, como eu, aproveitam a tranquilidade matutina. Aos poucos a cidade desperta, espreguiça-se abraçada ao rio. Passam bicicletas, passeiam-se crianças e cães, os pescadores instalam-se no seu canto preferido.


Os primeiros vendedores instalam as bancas de lembranças e gravuras à espera dos visitantes que não tardam a chegar. Os carteiristas virão logo a seguir e também os músicos que alegrarão o dia com uns acordes de jazz.
 

São horas de partir, de subir até ao castelo e à catedral, descer por ruelas cheias de pormenores, parar no relógio para olhar personagens e planetas, e ficar também a ver quem para ele olha.

A noite cai acompanhada por um copo de cerveja local e deixo que os meus sonhos sejam embalados pelo balancear do "botel" atracado no cais. Boa noite, Praga.


segunda-feira, agosto 27, 2012

Cerveja... da cabeça aos pés

A cerveja deve consumir-se moderadamente. A cerveja quer-se bem gelada.

O consumo de cerveja na  República Checa é quase assustador, nada menos que 132 litros anuais per capita. Mas, será que este número justifica que eu tenha esvaziado um recipiente com largas dezenas de litros de "cevadinha" em menos de meia hora? E que prazer pode dar cerveja a 34º?

Muito, como se vai ver. 
A cena passa-se em Planá, na Boémia ocidental, no Spa de cerveja Chodovar onde estive imersa num banho de cerveja  espumosa e deliciosamente morna, temperada com água mineral e ervas medicinais. Ao lado da banheira de inox uma caneca de cerveja, esta fresquinha, para bebericar durante o banho. Enquanto isso o líquido dourado  penetra nos poros e actua a nível físio e neurológico.


Vinte minutos passados e a matrona que nos fez as honras do spa retira a tampa da banheira e faz-me seguir, embrulhada num cobertor, para uma caverna escassamente iluminada, para mais outros tantos minutos de repouso, relaxe e, quiçá, meditação.
 

O tempo chega ao fim. Saio descontraída, com a pele mais suave e cheirosa e promessas de cura de celulite e acne, alívio de problemas mentais, diminuição da tensão arterial e melhoria da circulação.

Quem disse que o excesso de cerveja não faz bem à saúde?


sábado, agosto 18, 2012

Badalada suspensa



 Os três romenos entretinham-se em filmes e fotografias e Guiliana deixou que os pensamentos acompanhassem o deslizar da gôndola.
Estava diferente nesse fim de tarde, mergulhada numa inquietação que já não sentia há muito. Desde pequena que o barco era o seu mundo; tentara, e conseguira, ser a primeira gondoleira. E era precisamente a ansiedade desconfortável do primeiro dia, que sentia hoje.

Passaram pela ponte delle Meraviglie e Giuliana olhou por acaso para a fondamenta junto à Cantine del Vino gia Schiavi onde um pequeno grupo saboreava o fim da tarde num copo de prosecco .
Luigi o único homem a quem amara verdadeiramente, estava entre eles, a conversar, vestido de negro, um rectângulo branco a interromper a severidade do hábito.

Os sinos descontrolados pareceram suspender uma meia badalada mas, quando recuperaram o ritmo, a remada tornou-se enérgica e, para alegria dos romenos, Giuliana entoou um sentido “Ó sole mio”.

(Tarefa: na pele de uma veneziana)

quinta-feira, agosto 16, 2012

Uma tarde, nunca é tarde


 Atravessou rapidamente o lobby do hotel para fugir à chuva que começava a cair, entrou no elevador e, mal as portas se fecharam, compôs a figura nos espelhos. Um barulho estranho, um solavanco sobressaltado e a gaiola dourada parou.
Marcel carregou em todos os botões, tentou forçar as portas, sem sucesso. Sabia que era passageiro, que em Veneza as faltas de luz eram frequentes e curtas. O que o aborrecia mesmo era estar ali fechado, entre dourados e damascos que não conseguia ver.
 
 
E ainda menos via o espectáculo que se desenrolava lá fora. Fechou os olhos e imaginou o vento e a chuva a serem impedidos de entrar, como hóspedes indesejados, a esmagarem-se nas janelas do terraço do Danieli, o céu de ardósia rasgado por relâmpagos traçados por mão de criança.
Ah... e o seu lanche.
O chá fumegante  para saborear devagar, muito devagarinho, quase gota a gota, a madalena que mordiscava quase a medo.

Click, as luzes regressaram à vida e o elevador continuou a subida como se nada tivesse acontecido.
Marcel entrou no salão. Na sua mesa habitual estava já o prato com o bolinho minúsculo que lhe encheria a tarde. Só faltava pedir o chá. Chegara a horas de recuperar o tempo perdido.

(Tarefa: na pele de Dickens, Proust, G Sand ou Balzac, que viveram ou estiveram hospedados no Hotel Danieli)

terça-feira, agosto 14, 2012

Milagre veneziano




“Do alto desta torre...”
“Não, Margaretta, não estás na grande pirâmide do Egipto, mas na Campanille de Veneza. A frase não é essa. Deixa-te de tonterias e aproveita o espectáculo.”
Obedeço com uma piscadela de olhos, tiro a máquina fotográfica da mochila, procuro ângulos e cantos. As cadeiras amarelas da piazzetta San Marco com a ilha de San Giorgio ao fundo? Humm, agrada-me.

 
Passo as mãos e a máquina pelas grades e preparo-me para disparar. O alemão gordo que subira connosco no elevador empurra-me e, ... OMG!, a máquina salta-me das mãos e desce vertiginosamente esmagando-se no chão de pedra. Corro para o elevador, impaciente. Há fila. Grande. Vá, anda! Oh meus deus, a máquina e, mais do que ela, as fotos que lá estão.
Aqueles telhados ali, andei debaixo deles ainda ontem, na companhia de gatos e de Corto. A basílica de la Salute,a colá. Perdi os vídeos do concerto de órgão que ouvimos lá.

 
E a piazza san Marco ao lusco-fusco, a ângustia do miúdo a que deixou a bola cair no canal, ali mesmo, olha, foi mesmo naquele sítio.
Vês o ghetto lá ao fundo? Aquele telhado junto à torre inclinada? Foi aí que nos sentámos a escrever sobre a misteriosa Valentina.
Perdi tudo, tudo. Todas as minhas memórias esmagadas lá em baixo.

Saio finalmente do elevador, varro o chão com os olhos desesperados, à procura dos restos da máquina. Nada. Os ombros caem, impotentes, e nem sentem a mão que lhes toca e me estende um cartão de memória que sobressai de um puzzle de peças negras.
“É seu?”
“Obrigada, senhor, obrigada. Como se chama?”
“Eu? Marco, san Marco. Encantado.”


(Tarefa: do alto da Campanille)

strč prst skrz krk

Muitas palavras checas têm sequências de consoantes que nos enrolam a língua. O que não sabia é que se pode escrever toda uma frase sem uma única vogal!
Como "Strč prst skrz krk" que significa "Coloque o seu dedo pelo pescoço".

domingo, agosto 12, 2012

Relógio a dois tempos




O coração de Aaron batia descompassado como um relógio  a que faltasse afinação. Fora por pouco mas conseguira saltar já o barco se afastava do cais.
Se não o apanhasse... Nem queria pensar no que podia acontecer se ainda estivesse em San Marco depois do pôr-do-sol.
A Giudecca desenhava-se no horizonte e só a vista da ilha o descansou. Seguira as regras, cumprira a sua obrigação.


Revoltava-o a imposição de abandonar San Marco com o sol. Os mesmos que durante o dia lhe sorriam ao estender osrelógios para que os reparasse com delicada minúcia, empurravam-no para o outro lado do canal. Como que um relógio a dois tempos. Fechadas as portas da loja fechavam-se também as da tolerância.

 

Nem um pé judeu podia pisar Veneza depois do sol se esconder. Como se alguém tivesse medo que espezinhasse San Marco.
O barco acostou em Zitelle e Aaron saltou para o solo que parecia ainda balouçar. Chegara ao seu refúgo, à sua prisão. E, como todos os dias, engoliu uma lágrima cansada.


(Tarefa: na pele de um judeu da Giudecca)

sexta-feira, agosto 10, 2012

Se non è vero...



A água verde pastosa da fondamenta Cá Balá reflecte o vulto de dois homens apoiados no parapeito da ponte.
“Sabes o que me fez ficar por aqui, há tanto ano?”, perguntou o mais velho, continuando sem esperar a resposta. “O ritmo poético das águas, que parece embalar as palavras fazê-las dançar.”

O outro, rosto anguloso de rugas traçadas como num mapa, limitou-se a acenar lentamente e continuouo a fixar a água que parecia querer atraí-lo ao infinito.

“Não foram os canais nem tão pouco uma mulher, foi esta água que parece respirar, transfigurar-se ao sabor das marés. Acreditas, Corto?”

“Benne,  se non è vero è ben trovato.”, respondeu o marinheiro.


(Tarefa: encontro de Corto com Erza Pound, que viveu muitos anos em Veneza)