sexta-feira, fevereiro 23, 2007

To see the world in a grain of sand


To see the world in a grain of sand,
And to see heaven in a wild flower,
Hold infinity in the palm of your hands,
And eternity in an hour.

William Blake
Auguries of Innocence

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Silêncio...


"Falar do deserto não será, em primeiro lugar, calarmo-nos, como ele, e prestar-lhe homenagem não com as nossas vãs tagarelices mas com o nosso silêncio?"

«Parler du désert, ne serait-ce pas, d’abord, se taire, comme lui, et lui rendre hommage non de nos vains bavardages mais de notre silence ?»

Théodore Monod

domingo, fevereiro 18, 2007

La vie Théodore

"La vie Théodore", uma canção de Alain Souchon, presta-lhe uma verdadeira homenagem. Escolhida pelo cantor e pelo projecto Douleurs Sans Frontières para ajudar as crianças doentes de todo o mundo a esquecer um pouco o seu sofrimento, pode escutá-la aqui.

E, para encerrar os posts de T. Monod, nada melhor do que lhe dar a palavra e ler os seus conselhos a quem se aventura pelo deserto.


La Vie Théodore
(Alain Souchon)

On s'ennuie tellement (x4)
Alors la nuit quand je dors
Je pars avec théodore
Dehors (x4)
Marcher dans le désert
Marcher dans les pierres
Marcher des journées entières
Marcher dans le désert
Dormir dehors
Couché sur le sable d'or
Les satellites et les météores
Dormir dehors
Il faut un minimum
Une bible, un coeur d'or
Un petit gobelet d'aluminium
Il faut un minimum
Si loin de la nature ici
Le coeur durci
On est si loin de l'air
On est si loin du vent
Si loin du grand désert
Si loin de l'océan
Alors la nuit quand je dors
Je pars avec Théodore
Dehors (x4)
Marcher dans le désert
Si loin de la nature ici
Le coeur durci
Chercheur de trésor
De brindille et de phosphore
D'amour humaine et d'effort
Chercheur de trésor
Il faut un minimum
Une bible, un coeur d'or
Un petit gobelet d'aluminium
On s'ennuie tellement (x4)

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Théodore Monod, o Senhor do Sahara

Naturalista, erudito e explorador como os grandes do século XVIII, Théodore Monod, com quem caminhámos em muitos dos post dedicados ao deserto branco, nasceu em Rouen, França, em Abril de 1902 e faleceu a 2 Novembro de 2000 depois de uma greve de fome pela abolição das armas nucleares.
Manifestou-se muito cedo o seu interesse pela natureza à sua volta: plantas, animais, rochas ou fósseis, nada escapava à sua curiosidade infantil, ao seu desejo de conhecer, de saber.

Il est toujours dans les papiers, les livres, les carnets. Pour son plaisir il copie des fragments de fables, ou les noms des animaux préhistoriques, d' après une géologie. (Livre de Théodore Monod, Fevereiro 1909)

Depois de estudos superiores em Biologia e Geologia foi colocado na Mauritânia, no Département de Pêches et Productions Coloniales, em St-Étienne. Para regressar a Paris teve de ir até Dakar, no Senegal, de camelo.
Estavam abertas as portas do deserto, que percorreu, como ninguém, de lés a lés. Milhares de quilómetros a pé, de camelo, estudando sítios e gentes, areias e animais, plantas e rochas, com o olhar apaixonado do cientista e humanista que foi. Mais de sessenta anos de explorações que terminaram no Yémen, em 1995, onde, antes de perder a visão, olhou o Sahara pela última vez, com 93 anos.

Uma vida fascinante que pode conhecer um pouco melhor aqui .

domingo, fevereiro 11, 2007

Egipto - E, na primeira oportunidade, voltas a partir...



Não, não é agradável [...] os salpicos da regurgitação do camelo, a comichão da carraça nas calças, a água salobra, a comida com areia, as noites ventosas. Os desconfortos desta vida são muitos.[...]
A paragem do meio-dia é tórrida? Este vento diabólico? Esta noite gelada? Não te queixes. Suporta. Tem paciência. Cerra os dentes. A vingança virá mais cedo ou mais tarde.
De resto conheço-te bem. Quando ela vier, essa vingança tão esperada, quando te deitares, saciado, com iguarias delicadas que não te estalaram sob os dentes, saciado com uma água incolor, sem pêlos de bode, numa cama de sibarita , sob um tecto, no quente, então, em vez de saboreares de forma duradoura a tua felicidade, muito rapidamente, assim que o grande cansaço das tuas caminhadas solitárias estiver esquecido, então começas a sentir falta das tuas rudes etapas, dos teus pés escalavrados, dos teus lábios gretados, dos teus sonos enroscado sob as estrelas.
E, na primeira oportunidade, tal como eu, voltas a partir...

Théodore Monod
in A Esmeralda dos Garamantes



Non, ce n' est pas agréable [...] les éclaboussures de régurgitat camelin, le rostre de la tique dans ta culotte, l' eau saumâtre, les gruaux sablés, les nuits venteuses. Les désagréments de cette vie sont copieux. [...]
La halte méridienne est torride? Ce vent diabolique? Cette nuit glacée? Ne te plains pas. Supporte. Patiente. Serre les dents. La revanche, tôt ou tard, viendra.
D' ailleurs, je te connais bien. Quand elle sera venue, cette vengeance tant esperée, quand tu coucheras , rassasié de mets délicats qui n' auront pas craqué sous la dent, désaltéré d' une eau incolore, sans poils de bouc, dans un lit de sybarite, sous un toit, au chaud, alors, au lieu de savourer durablement cette félicité, très vite, dès que la grosse fatigue de tes marches solitaires sera oubliée, alors tu te prendras à regretter tes rudes étapes, tes pieds écorchés, tes lèvres éclatées, tes sommeils recroquevillé sous les étoiles.
Et, à la premiére occasion, comme moi, tu repartiras...

Théodore Monod
in L' Émeraude des Garamanthes

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Egipto - O deserto é uma lição


Mas a grande lição do deserto continua a ser a paciência, a humildade, a submissão à realidade, benéfico exercício para um orgulhoso primata, demasiado tentado a considerar-se o centro do mundo e o rei da criação. [...] Aqui, no deserto, não se comanda, obedece-se: este poço está aqui e não ali e o seguinte está a 650 quilómetros, nem mais nem menos, é pegar ou largar meu bom amigo: se isto não lhe agrada, não vá lá, fique em casa a ver TV ou a ler policiais, mas, se entrar no Sahara, então entre no jogo e aceite ver o seu pueril orgulho ridicularizado pela areia, pelos espinhos ou pelas pedras, pelo vento, pelo frio e pelo sol.

Théodore Monod
in A Esmeralda dos Garamantes



Mais la grande leçon du désert c' est encore la patience, l' humilité, la soumission au réel, bénéfique exercice pour un orgueilleux primate, trop tenté a se prendre pour le centre du monde et le roi de la création.[...] Ici, au désert, on ne commande pas, on obtempère: ce puits est ici et non là, et le suivant est 650 quilomètres plus loin, pas un de moins, c' est à prendre ou à laisser, mon bon ami: si ça ne vous plait pas, n' y allez point, restez chez vous, à regarder la "télé" ou à lire des policiers, mais si vous "entrez" au Sahara, alors, jouez le jeu et acceptez de voir votre puéril orgueil bafoué par le sable, l' épine ou le caillou, le vent, le froid et le soleil.

Théodore Monod
in L' Émeraude des Garamanthes

Egipto - Acampamento




Ei-lo por fim descoberto, esse pequeno paraíso de uma noite. Apressamos o andamento nos últimos passos e depois, de súbito, é a paragem, a descarga dos camelos: depois do longo dia, do seu calor, das suas misérias, eis a grande pacificação.[...] É verdade que amanhã é preciso recomeçar, muito cedo, a caminhada. Não o ignoramos mas queremos um instante, esquecê-lo para nos entregarmos totalmente às volúpias indescritíveis da hora: os músculos esgotados reencontram o fraternal contacto da areia, dentro de instantes o chá-xarope virá deleitar o nosso cansaço e depois iremos poder, por algumas horas, viver num sítio, viver – grande maravilha – imóvel, isto é, ler, escrever e sobretudo não fazer nada; olhar, escutar, esperar, ver a noite cair sobre a imensidão vazia, e devorar as dunas e os fiéis cortejos celestes empreenderem a sua caminhada quotidiana: é a tua vez Antares, é a tua vez Sirius, caminha, caminha, eu paro.

Théodore Monod
in A Esmeralda dos Garamantes




Le voici découvert enfin, ce petit paradis d' un soir. On presse l' allure pour les derniers pas et puis, c' est, tout soucain, l' arrêt, le baraquage: après la longue journee, sa chaleur, ses misères, voici le grand apaisement.[...] Sans doute faudra-t-il reprendre demain, bientôt, la marche. On ne l' ignore pas, mais on veut, un moment, oublier pour se livrer tout entier aux voluptés indicibles de l' heure: les muscles recrus retrouvent le fraternel contact du sable, dans un instant le thé-sirop viendra réjouir nos fatigues, et puis on va pouvoir, quelques heures, vivre sur place, vivre – belle merveille – immobile, c' est a dire lire, écrire et, surtout, ne rien faire: regarder, écouter, attendre, voir se refermer la nuit sur l' immensité vide, les ombres deegringoler des falaises et dévorer les dunes et les fidèles cortèges célestes entreprendre leur quotidienne étape: Antarès, à ton tour, Sirius, marche, marche, moi je m' arrête.

Théodore Monod
in L Émeraude des Garamanthes

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Egipto - O deserto a pé


É a pé que se sente verdadeiramente o deserto! Sozinhos, longe dos companheiros, imersos numa paisagem irreal, envolvidos por um silêncio tranquilizador, somos insignificantes, um minúsculo ponto num imenso mar de areia. Tudo ganha uma nova dimensão, pormenores que, de outro modo, passariam despercebidos, ganham estatuto de vedeta: a pedrita com uma forma peculiar, a ponta de sílex ou o pedaço de casca de ovo de avestruz – vestígios de outras épocas – a rocha que a acção dos elementos rendilhou, as areais douradas ou ocres onde o vento deixou a sua impressão digital...
As dunas que subimos com esforço, quando as pernas acusam o cansaço dos muitos quilómetros de marcha, quando os 4 ou 5 quilos da mochila se tornam insuportáveis...
E é também, e, talvez, essencialmente, um convite à reflexão, um mergulho ao interior de nós próprios.

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Egipto - Théodore Monod não conheceu a Christianne



O problema da leitura num camelo continua sem solução prática. E é pena, pois os enormes ócios do mearista [...] bem mereciam conseguir uma melhor utilização do tempo do que pensar na suavidade nocturna, nas analépticas virtudes do chá dessa noite ou em qualquer impossível limonada gelada. Ora, é demasiado evidente que os editores nunca pensaram senão em leitores imóveis, que não se dobram ao meio uma vez em cada metro, mil vezes por quilómetro, quarenta mil vezes por dia e, ainda mais, empoleirados no alto por vezes perigosamente ventoso de um veículo de ritmado e brutal balanço.


Théodore Monod
in A Esmeralda dos Garamantes



Le problème de la lecture à dos de chameau demeure sans solution pratique. Et c' est dommage car les énormes loisirs du méhariste [...] méritaient bien de connaître un plus utile emploi du temps que de songer à la douceur de la nuit, aux analeptiques vertus du thé de ce soir, ou à quelque impossible citronnade glacée. Or, il n' est que trop évident que les éditeurs n' ont jamais songé qu' à des lecteurs plus ou moins immobiles, non pliés en deux une fois par mètre, 1000 fois par kilomètre, 40000 fois par jour et davantage, perchés au sommet souvent redoutablement venteux d'un véhicule au rythmique et brutal tangage.

Théodore Monod
in L'Émeraude des Garamanthes

domingo, janeiro 28, 2007

Egipto - O ritmo dos dias


A vida sob o céu, no centro de uma paisagem de horizontes quase sempre circulares, tendo como "tecto" uma cúpula hemisférica completa onde irão inscrever-se, durante o dia, o curso do sol, durante a noite a lenta deslocação das constelações: mesmo sem relógio, o viajante saberá sempre as horas e sentir-se-á, tanto de dia como de noite, situado no centro do relógio astronómico, o único a regular a sua existência quotidiana.
Pois aqui vive-se ao próprio ritmo do cosmos; noutro sítio faz-se batota, aqui obedece-se, tal como os outros animais; o dia é o dia, a noite é a noite, e o homem, animal diurno, levanta-se ao alvorecr e adormece na obscuridade regressada.

Théodore Monod
in A Esmeralda dos Garamantes



La vie sous le ciel, au centre d'un paysage aux horizons le plus souvent circulaires, avec pour "toit" une coupole hémispherique complète où vont s inscrire, le jour, la course du soleil, la nuit le lent cheminement des constellations: même sans montre, le voyageur saura toujours l' heure et se sentira, de jour comme de nuit, placé au centre même de l horloge astronomique qui va seule ordonner son existence quotidienne.
Car on vit ici au rythme même du Cosmos; allieurs on triche, ici on obéit, comme les autres bêtes: le jour est le jour, la nuit est la nuit, et l homme, animal diurne, se lève avec les premières blancheurs de l aube et s' endormira dans l' obscurité revenue.

Théodore Monod
in L' Émeraude des Garamanthes

sábado, janeiro 27, 2007

Egipto - Monotonia do deserto


Monótono o deserto? Só por graça! Para o cego sem, dúvida, para o autêntico, o fisiológico, tal como para o outro, o viajante banal, vulgar, sem curiosidade e que não sabe ver nem olhar. Mas para o "iniciado" quantas coisas para observar, para descobrir, aliás, mais frequentemente para ler no solo [...] E até mesmo onde, à escala da paisagem, a monotonia parece ter-se instalado, pode sempre surgir o imprevisto: que iremos encontrar atrás daquela ondulação do terreno, atrás daquele cordão de dunas, no topo daquela falésia, que lugar pré-histórico, que pássaro, que planta e, na salmoura desta sebkha, que crustáceos?

Théodore Monod
in A Esmeralda dos Garamantes





Monotone, le désert? Monsieur veut rire! Pour l aveugle, sans doute comme pour l autre, le voyageur banal, ordinaire, sans curiosité et qui ne sait ni voir ni regarder. Mais pour qui a "bon pied, bon oeil", pour l initié, que de choses à obsrever, à découvri, le plus souvent d ailleurs à lire sur le sol[...] Et même où à l échelle du paysage, la monotonie semble s installer, l' imprévu peut toujours, à l improvise, surgir: qu' allons-nous trouver derrière ce repli de terrain, derrière ce cordon de dunes, au sommet de cete falaise, quel site préhistorique, quel oiseau, quelle plante, et , dans la saumure de cette sebkha, quels crustacés?

Théodore Monod
in L Émeraude des Garamanthes

domingo, janeiro 21, 2007

Egipto - Os primeiros passos


Começa cedo uma manhã no deserto. Ainda o sol não nasceu e já Peter, o nosso guia, nos acorda com o seu " À taaaaaaaaaable!"
Há que arranjar coragem para enfrentar o frio que nos espera fora do aconchego do saco-cama, sacudir a areia com que o vento se encarregou de nos cobrir durante a noite. A higiene é sumária, como não podia deixar de ser. Uma limpeza rápida com Dodots (mas, também, ... quem seria capaz de se lavar com água gelada, se a houvese?) e logo os dedos enregelados procuram algum conforto no copo de plástico com o chá bem quente do pequeno almoço. Pão egípcio, a quem as brasas deram alma, doce de figo, os omnipresentes triângulos de La Vache qui Rit, e estamos prontos.
Partimos ao ritmo aparentemente lento dos camelos. À nossa volta um mar de areia, dunas e rochas, muitas rochas de um branco impressionante.


L'extrême aridité, la sculpture étonnante de ses paysages, font du désert Blanc l'un des endroits les plus singuliers du Globe. Sa géologie apporte une vision inédite du désert. La craie éclatante le jour se pare de rose et de mauve au coucher du soleil et d'or sous la pleine lune. Le froid matinal donne aux ombres ce bleu si particulier de nos jours de neige, et l'imagination s'emballe face aux monstres de craie luttant contre les siècles d'érosion...

Patrick Darphin
in Le désert blanc

domingo, janeiro 14, 2007

Egipto - O deserto imaginário



O deserto branco, a uns 600 kms do Cairo, entre os oásis de Baharya e Farafra, é uma depressão de areia fina, leito de um antigo oceano, de onde emergem, como icebergs, impressionantes rochedos brancos. O tempo e o vento encarregaram-se de os esculpir dando-lhes formas surpreendentes, como se de estranhos cogumelos se tratassem.
Foi este o local escolhido para um Natal diferente, sem árvore e iluminações, sem perú, sem bolo-rei. Um Natal que partilhei com um divertido grupo de doze almas: 9 franceses, 1 belga, 1 coreana e eu. E os indispensáveis guias e cozinheiro, 3 dromedárias.

Foram dias de desconforto, de frio, de cansaço mas, essencialmente, seis dias de sonho. Durante 6 dias percorremos quase 120 kms num cenário irreal, lunar. E continua a não haver nada mais belo que acordar a meio da noite, abrir os olhos e ter por tecto um céu de milhões de estrelas...

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Mochila às Costas



De partida para o Egipto, para mais uma imersão no deserto. Uma caminhada de 90 kms atrás de uma caravana de camelos na zona oeste do Egipto, perto da fronteira com a Líbia cujos pormenores se podem espreitar aqui. À minha espera está uma paisagem quase irreal: rochas brancas que sobressaem do ocre da areia como se de enormes suspiros se tratassem. Noites ao relento num hotel de milhares de estrelas, o silêncio, a magia das areias... E o regresso à civilização a 3 de Janeiro.

J'ai toujours aimé le désert. On s'assoit sur une dune de sable. On ne voit rien. On n'entend rien. Et cependant quelque chose rayonne en silence.

Antoine de Saint-Exupéry

domingo, dezembro 03, 2006

Are you ready for the rapids?


As tumultuosas águas do Zambeze são palco para o que é conhecido como ``o rafting mais selvagem do mundo''. Uma sucessão impressionante de difíceis rápidos de grau 5 e 6, que incluem violentos turbilhões, desníveis acentuados com perigosas rochas semi-cobertas. E, claro, inevitáveis quedas na água esperam todos quantos se atreverem.
Demasiado arriscado para a senhora de provecta idade que sou! Assim, optei pela emoção controlada do ``jet boat'' nos rápidos, uma, mesmo assim, aventura intensa, com rápidos de classe 3, 4 e 5. E é num barco de 6 metros com dois motores de 350 cavalos, que enfrentamos a impressionante muralha de água das quedas, junto ao rápido "against the wall", a escassos metros da catarata onde a água cai com tanta violência que é difícil manter os olhos abertos, e mergulhamos, literalmente, nas águas do rápido número 2. De cortar a respiração!


Mas, ... passo a palavra à Nicole, companheira desta e de outras aventuras, que é também a autora da fotografia que acompanha este post:

Après avoir vu les chutes du haut et de très haut (hélicoptère), nous les approchons enfin de très près. Un petit tour en jet-boat, pour avoir quelques sensations sans danger. Pour le rafting, c'est d'un niveau trop élevé pour nous. Après avoir descendu un "chemin" très scabreux, le Zambèze est là, à nos pieds... Le bruit est encore un peu sourd.... Equipement, embarquement. C'est parti ! Et les sensations seront plus fortes que prévues ! Nous serons bien sûr douchées et redouchées par les rapides, ballotées à gauche, à droite, en haut, en bas.... Mais le plus impressionnant est d'approcher de très près le point de chute des eaux: nous en sommes à environ 15 mètres. On devine depuis le ciel bleu, loin, tout là-haut, derrière un bout d'arc-en-ciel..... même les yeux remplis d'eau et d'embruns. On est au coeur de deux très forts courants, rapides tumultueux, qui arrivent de part et d'autre de l'embarcation avant de s'engouffrer dans le Zambèze déchaîné, prisonnier de la profonde fracture de basalte. Ce Zambèze là n'a rien à voir avec celui d'avant les chutes, si calme, paisible, large, silencieux. Ici, le bruit est assourdissant. Les chutes sont fortes, puissantes, majestueuses.


Se bem que nada se compare às realidade das sensações vividas, o ficheiro Jetboat Showreel dá acesso a um pequeno vídeo da actividade.

terça-feira, novembro 28, 2006

3-2-1! Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah..... (Bungee Jumping nas Cataratas Vitória)


Não é uma ponte qualquer a que, a poucos metros das cataratas Vitória, une o Zimbabwe e a Zâmbia. A ideia deve-se a Sir Cecil Rhodes que queria que os passageiros dos comboios que aí passassem recebessem na cara as águas das cataratas.

Build the bridge across the Zambezi where the trains as they pass will catch the spray from the falls.

E foi precisamente na ``no man's land'', num vagão parado sobre a ponte, que decorreram as negociações da independência da Rodésia que dariam origem aos actuais Zimbabwe e Zâmbia. Se nos nossos dias perdeu a importância estratégica ganhou fama entre os muitos turistas que visitam as cataratas.
Do alto da ponte, com as quedas de água ao fundo, num vôo de 111 metros de adrenalina pura, os mais corajosos testam os limites da mente e do medo lançando-se no vazio sobre os rápidos do Zambeze.
Escusado será dizer que a tanto não me aventurei e que me limitei a assistir às performances dos bravos saltadores que, depois do feito são içados de volta à ponte à força de braços humanos.

E, não tendo recordações de um salto particular para mostrar, fica aqui o filme de um salto encontrado ao acaso no Youtube.

domingo, novembro 05, 2006

Zimbabwe - Cataratas Vitória




Apesar de tidas como uma das 7 maravilhas naturais do mundo, património mundial da Unesco, foi com alguma suspeição que cheguei às cataratas Vitória. Anunciada como a ``capital da adrenalina de África'', a cidade de Victoria Falls, junto às cataratas, não augurava nada de bom. As páginas dos guias de viagem são pródigas em prometer inesquecíveis vôos de helicóptero ou ultraleve, bungee jumping, rafting e jetboat nos rápidos do Zambeze, safaris de elefante e passeios com leões, cruzeiros a montante das quedas ... tudo para ocupar e entreter os visitantes.
Esperava, assim, encontrar algo parecido com as cataratas de Niagara: quedas de água lindíssimas mas rodeadas de néons, comércio desenfreado, casas de fast food, lojas de recordações kitsch, americanos gordos e barulhentos, bandos de japoneses a metralhar incessantemente as cataratas com a fúria de paparazzi.
Enganei-me, felizmente. A cidade, não é, de modo algum, uma típica cidade africana, nem permite que se tenha um vislumbre do que é o Zimbabwe, mas , apesar das muitas agências que comercializam as actividades e de um comércio dirigido a nós, turistas, é uma cidade tranquila.
E as cataratas Vitória, a escassos um ou dois quilómetros da cidade, magnificamente enquadradas no parque natural que leva o seu nome, são um oásis de paz, de comunhão com a natureza. Durante algumas horas passeámos por uma floresta tropical, por entre carreiros cuidados, vimos as quedas de perto e de vários ângulos, cumprimentámos a estátua de Livinsgstone, bebemos água dos salpicos que nos deixaram ensopadas.
E, diga-se em abono da verdade, pela beleza das cataratas e pelas impressionantes características geológicas, o título de maravilha do mundo natural é mais do que merecido.

terça-feira, outubro 17, 2006

Zimbabwe - Mosi-oa-Tunya

Conhecemo-las como Cataratas Vitória, o nome com que, em 1805, David Livingstone as baptizou, em homenagem à rainha que, na época, governava o império britânico. Chamavam-lhe os locais Mosi-oa-Tunya, o fumo que troveja. Serpa Pinto, no seu "Como eu atravessei África" sugere o fumo que se levanta, e explica:
[...] Mozi-oa-tunia é uma frase já feita, quotidiana, vulgar na linguagem dos Basutos. Quando o marido volta a casa e pergunta à mulher se a comida está ao fogo, ela respondeu-lhe mozi-oa-tunia, "o fumo que se levanta".
As cataratas, consideradas uma das 7 maravilhas naturais do mundo , são parte da fronteira entre o Zimbabwe e a Zâmbia, local onde as águas do Zambeze se despenham, ao ritmo impressionante de 9100 metros cúbicos por segundo, num sulco de 1,7 km de largura, rasgado num bloco de basalto, para logo se comprimirem numa fenda de 30 metros que as empurra violentamente para a estreita saída conhecida pelas "Portas do Inferno" e para o canal que ziguezagueia por entre impressionantes paredes negras, altas de 120 metros, criando rápidos e redemoinhos dantescos.

domingo, outubro 08, 2006

Zimbabwe - o mítico Zambeze



O grande rio parece fugir de nós, e como sempre, quando muito se anseia por atingir um ponto, mal se calcula a sua distância, nós ardendo de impaciência, pareciam-nos as horas séculos. Finalmente [...] demos vista do colosso.
Hurrah! foi o grito unânime, e, sentando-nos nos alcantis da encosta demos larga à comoção que nos dominava. Que panorama, que quadro dali se desenrola aos olhos dos recém-chegados!
[..] Em baixo, amesquinhado pela distância, serpenteava o Zambeze, resplandecente à luz do Sol, com o seu leito semeado de ilhas e as várzeas cobertas de verdura.

in De Angola à Contracosta – descripção de uma viagem atravez do continente africano
H. Capello e R. Ivens – Officiaes da Armada Real Portuguesa
1886

Menos agitada mas igualmente emotiva foi a nossa chegada ao Zambeze. Ele ali estava, tranquilo, majestoso, aos nossos pés.
E foi de barco, num ritmo deliciosamente preguiçoso, que descobrimos crocodilos que rastejavam até à água, elefantes a procurar alimentos nas margens, cabeças de hipopótamos que emergiam das águas que, pouco a pouco se tingiam de vermelho...

domingo, outubro 01, 2006

Botswana - PN Chobe - Rete mirabile


Era descrita pelos romanos como um híbrido de camelo e leopardo e daí vem o seu nome: giraffa camelopardis. Com cerca de 900 quilos distribuídos por um corpo de 5,5 metros, a girafa é uma espantosa obra da natureza.
A característica que mais salta à vista é o pescoço, longo de 2,5 metros e que tem, como nós, sete vértebras. Dizem os cientistas que não podia ter menos, por causa da flexibilidade, nem mais, pois acarretaria a necessidade de uma maior massa muscular, o que deslocaria o centro de gravidade de tal modo que a girafa estaria em permanente desequilíbrio.
Ser grande tem, por vezes, inconvenientes. Não é um coração qualquer que consegue bombear o sangue até ao cérebro, a uns cinco metros de altura e o coração da girafa é uma máquina poderosa, capaz criar uma pressão arterial suficiente para vencer as alturas. Mas, com tal pressão, como impedir o excessivo afluxo de sangue ao cérebro quando baixa a cabeça para beber? Rete mirabile (rede maravilhosa) , um complexo sistema situado na parte superior do pescoço, foi a resposta da natureza.
E o que dizer da pressão sanguínea exercida na parte inferior das pernas? É de tal modo forte que seria suficiente para que, por capilaridade, o sangue inundasse os tecidos em volta, o que só não acontece graças à pele, extraordinariamente flexível e resistente, que os envolve e impede a passagem do sangue para o exterior dos vasos sanguíneos. É um sistema tão perfeito que foi estudado por cientistas da NASA e fonte de inspiração para os fatos dos astronautas.
Mas maravilhas da girafa não se ficam por aqui. Impossibilitada de se deitar para dar à luz, a mãe-girafa deixa, literalmente, cair as suas crias. Como é que uma girafinha tem de nascer para resistir à queda de 1,5m? Se a primeira parte a sair fosse o pescoço ... partia-se com a força do impacto com o solo. Se saíssem em primeiro lugar os membros posteriores e o tronco, o peso deste, uns meros 70 quilos, exerceria tal força sobre o pescoço que o partia... Como é, então, que a girafa nasce?
Descubra aqui e aqui um pouco mais sobre a girafa.