segunda-feira, julho 25, 2011

O canal alternativo


Construído que foi o canal em tempos em que os motores pertenciam ainda ao reino da ficção científica e sendo a vela impraticável, os barcos avançavam pela força de homens ou cavalos que os puxavam pela margem, seguindo um caminho de terra que bordejava o curso de água. A função deu-lhe o nome : chemin de halage, ou, em português, caminho de sirga.

 
Se  a nossa viagem tivesse sido feita há uns séculos bem podíamos ter sido protagonistas de episódios como o que Jerome K. Jerome descreve no seu "Three men in a boat"*:

Of all experiences in connection with towing, the most exciting is being towed by girls.  It is a sensation that nobody ought to miss.  It takes three girls to tow always; two hold the rope, and the other one runs round and round, and giggles.  They generally begin by getting themselves tied up.  They get the line round their legs, and have to sit down on the path and undo each other, and then they twist it round their necks, and are nearly strangled.  They fix it straight, however, at last, and start off at a run, pulling the boat along at quite a dangerous pace.  At the end of a hundred yards they are naturally breathless, and suddenly stop, and all sit down on the grass and laugh, and your boat drifts out to mid-stream and turns round, before you know what has happened, or can get hold of a scull.  Then they stand up, and are surprised.


“Oh, look!” they say; “he’s gone right out into the middle.”

  They pull on pretty steadily for a bit, after this, and then it all at once occurs to one of them that she will pin up her frock, and they ease up for the purpose, and the boat runs aground.

You jump up, and push it off, and you shout to them not to stop.

“Yes.  What’s the matter?” they shout back.

“Don’t stop,” you roar.

“Don’t what?”

“Don’t stop—go on—go on!”

“Go back, Emily, and see what it is they want,” says one; and Emily comes back, and asks what it is.

“What do you want?” she says; “anything happened?”

“No,” you reply, “it’s all right; only go on, you know—don’t stop.”
[...]
“I see.  Give me out my red shawl, it’s under the cushion.”


You find the shawl, and hand it out, and by this time another one has come back and thinks she will have hers too, and they take Mary’s on chance, and Mary does not want it, so they bring it back and have a pocket-comb instead.  It is about twenty minutes before they get off again, and, at the next corner, they see a cow, and you have to leave the boat to chivy the cow out of their way.


There is never a dull moment in the boat while girls are towing it.


Hoje, que os barcos avançam impulsionados pelos cavalos do motor, os caminhos de sirga são uma mais valia para o canal. Protegido do sol pela sombra dos plátanos, choupos e pinheiros que estabilizam as margens, o caminho convida  a passeios a pé, de bicicleta, a cavalo, à pesca ou à simples contemplação dos barcos que passam, das garças, patos e ratos almiscarados que fazem do canal a sua casa.

É um outro olhar, uma outra descoberta. O Canal du Midi de bicicleta pelos caminhos de sirga? Huummm, quem sabe, um dia....


* A versão integral de "Three man in a boat", cuja leitura se recomenda vivamente, está disponível no Project Gutenberg.

sábado, julho 23, 2011

Abre-te Sésamo

Para quem não conhece, explique-se que uma comporta é uma obra de engenharia que permite que barcos subam ou desçam montanhas. A ideia nasceu com Leonardo da Vinci e é simples: constrói-se uma tina fechada por portas a montante e jusante, e enche-se ou esvazia-se para permitir que as embarcações subam ou desçam, ultrapassando os desníveis naturais do curso de água. Uma espécie de caverna de Ali Babá que abre e fecha não com palavras mágicas mas com o toque de uns botões.

Riquet fê-las ovais, em forma de azeitona, forma que melhor sustém o peso da terras. O orçamento ditou as dimensões, 30 metros de comprimento e 5,6  a 11 de largura, e obrigou a que fossem construídas barcaças especiais para lá poderem entrar: 29 metros da proa à popa.


A nossa primeira comporta surge com o pequeno almoço do primeiro dia de verdadeira navegação. E a primeira comporta é angustiante. Ninguém sabe muito bem o que, como e quando fazer. Entramos muito devagar tentando manobrar sem demasiados toques, olhamos para os outros barcos para ver como fazem. Os cabos voam, escorregam, quem salta para terra procura um cabeço para os amarrar. As portas traseiras fecham-se, a água começa a descer lentamente e o ar sai dos pulmões ao mesmo ritmo, num alívio prematuro pois nem 700 metros tinham passado e já outra nos espera. E é dupla, não, tripla!


Depois... habituamo-nos e, melhor ou pior, são 52 as comportas que faremos nos 100kms e 6 dias da viagem. Ou nos 5, descontando o dia de repouso forçado pela greve do pessoal que as opera.


A passagem de uma comporta é também um dos momentos em que retomamos a ligação a terra, em que o nosso universo vai um pouco além de nós e o barco. Trocam-se dois dedos de conversa com as tripulações que, como nós, aguardam a vez para entrar na eclusa, com os curiosos que se abeiram para assistir às manobras e se espantam com a a equipa quase só feminina - são italianas, dizia alguém - ou com o responsável pelo funcionamento da comporta. Olham-se com curiosidade as esculturas naifs feitas pelo antigo motorista de TIR Joel Barthes, que agora tem a seu cargo o abrir e fechar as portas de l'Aiguille.


No final acenamos um obrigado  que o "comportageiro" mal vê, ocupado que está a enviar as informações de passagem à comporta seguinte e avançamos no canal até à próxima.

domingo, julho 10, 2011

O túnel do tempo

O dia D chegou! O pedaço do canal que vai acolher os nossos primeiros quilómetros não foi desenhado por Riquet pois Carcassonne não quis co-financiar as obras. Vendo o sucesso comercial que o canal trouxe às povoações por onde passava, mudou de ideias e pagou a construção de um desvio, que abriu apenas em 1810.

Partimos com a dignidade de um Queen Mary a deixar o porto de Nova Iorque, apesar de na margem faltarem familiares e amigos chorosos a acenar lenços de despedida.

Nas nossas mãos, inexperientes e nervosas, estão os 12 metros do Silver Surfer, ou melhor, à la française, do Silvérr Siuférr. Primeiros metros, primeiros ziguzagues até que mão se "faça" e o barco avance mais direito.

Depois ... foram 6 dias em que o tempo parou e navegámos a não mais de 8 quilómetros por hora, deslizando num bucólico túnel de verdura, o ronronar do motor a misturar-se com o canto das cigarras que o tempo quente acordou.

terça-feira, julho 05, 2011

Foi assim que aconteceu...


Fomos loucos, sim senhor!!

Loucos por 6 dias.
Loucos que, sem experiência de marear e trocando cabos por cordas, conquistámos o Midi.
[...]

Post surripiado a Rutix, para continuar a ler aqui.

domingo, julho 03, 2011

Canal des Deux Mers, aka Canal du Midi

Caro Senhor, proponho a construção de um canal que estabeleça a ligação entre o oceano Atlântico e o mar Mediterrâneo, para permitir que os nossos barcos de mercadorias não tenham de contornar a península Ibérica evitando, assim, o mau tempo, os canhões espanhóis e os ataques dos piratas que enxameiam o estreito de Gibraltar.

Terá sido, grosso modo, este o teor da carta que, a 15 de Novembro de 1662, Paul Riquet escreveu a Colbert, homem forte do rei Luís XIV. A proposta era arrojada mas aliciante e avançou. Riquet ordena que se desviem rios e ribeiros para encher a barragem de Saint-Férrol onde mais de 6 milhões de metros cúbicos de água vão regular o nível do canal, retendo as cheias do inverno e compensado no tempo quente as perdas devidas à evaporação.

A tarefa é gigantesca e são necessários quase 16 anos para construir as 63 comportas (simples, duplas, ... e até sêxtuplas), 126 pontes, 7 pontes-canal, 55 aquedutos, 6 barragens e 1 túnel que permitiram que os primeiros barcos atravessassem os 241 quilómetros do canal.

O progresso, a construção de vias férreas e de estradas, quase o destruíram. Quando, em 1989, a última barcaça comercial deixou as suas águas, o canal parecia ter o abandono como futuro, mas o turismo fluvial restituiu-lhe a vida.

Hoje são cerca de 10 000 os barcos que cada ano cruzam as suas águas. Em 2011 um deles foi o nosso.

quarta-feira, junho 29, 2011

Carcas sonne

Diz a lenda que as hostes de Carlos Magno cercaram a cidade ocupada por mouros comandados pela princesa Carcas. Um cerco longo, muito longo, mas os sitiados lá iam conseguindo produzir alimento suficiente e resistiram cinco anos. No 6º a situação começou a complicar-se e, a certa altura, nada mais havia para comer do que um leitão e um saco de trigo.

Em desespero de causa Carcas empanturra o porquito com todo o trigo que conseguiu e atira-o do alto das muralhas. Esborrachado no solo, o ventre rebentado exibe a fartura de grãos, fazendo crer aos soldados de Carlos Magno que a comida não faltava aos sarracenos.

O estratagema resultou e as hostes gaulesas levantaram o cerco.


Ao vê-los partir, radiante de alegria, a princesa manda tocar todos os sinos, para anunciar a boa nova. E é então que um dos vassalos de Carlos Magno terá gritado a frase que deu o nome à cidade:

“Sire, Carcas sonne!”



domingo, junho 26, 2011

Cougar!

Cougar.
A palavra ouvi-a pela primeira vez há poucas semanas. Não que a não conhecesse, mas apenas a ligava a um animal, ignorando-lhe as conotações comportamentais. A segunda vez que a ouvi com este (novo) sentido foi em Toulouse.
Mas, já lá vamos...

A cidade recebeu-nos em festa, ou, se calhar, é Toulouse e não Paris que é uma festa. O centro nevrálgico da cidade enchia-se de sol e alegria, de manifestações de imigrantes ou contra o presidente sírio, desfiles de motards, cortejos de samba integrados no festival Rio Loco, paradas gay e até um casamento marroquino. As esplanadas estavam cheias, os carrosséis rodopiavam com crianças e adultos.

Com o aproximar do final da tarde, participantes e curiosos que ocupavam a Praça do Capitólio foram debandando, cedendo o lugar às sombras. Jean Philipe, chamemos-lhe assim, resistia ainda. No peito nu não havia pêlos a misturarem-se com o número de telemóvel que nele estava escrito. JP falava, quiçá respondendo a alguém que não resistira ao apelo...

Estranhou o meu pedido para o fotografar perguntando o que pretendia fazer com o número.

"Nada, tenho idade para ser tua mãe." (mentira, tinha mas era idade para ser quase avó dele). "Mas posso dá-lo às minhas amigas", acrescentei, apontando para quem me acompanhava.

Quoi?! Elas são "cougar"?

"Cougar - predarora sexual, mulher na casa dos 40 que tem predilecção por rapazes significamente mais novos"



quarta-feira, junho 22, 2011

La vie en rose, aliás, La ville Rose

Toulouse foi ponto de passagem de Astérix e Obélix que na Volta à Gália aqui compraram a salsicha que leva o nome da cidade. Toulouse foi, também, pista de aterragem dos aviões da Aéropostale pilotados por Saint-Exupéry e Mermoz.

E foi Toulouse quem acolheu os oito valorosos lusitanos no regresso de uma semana de navegação no Canal du Midi.

Chamam-lhe a La Ville Rose (a Cidade Rosa) pois é essa a côr do material de construção que os romanos utilizaram para erguer a urbe Tolosa. Não havendo pedras na região, transportá-las de outro sítio seria caro e moroso. A argila vermelho-alaranjada era, pelo contrário, abundante, e com ela se fizeram os tijolos que caracterizam a cidade.

Ainda hoje é frequente cobrir edifícios modernos com uma camada de barro vermelho para manter o estilo e o tom.

sábado, junho 18, 2011

sexta-feira, junho 17, 2011

Foi assim que aconteceu...(?)


Último dia de navegação e a previsão de dormir já pertinho de Carcassonne onde amanhã, pelas 9 horas, entregaremos, nas melhores condições possíveis, o Tarpon que nos serviu de hotel flutuante.

Durante estes dias passámos sob pontes estreitas e por canais sobre pontes. Lutámos para entrar em comportas e sair delas sem demasiados estragos. Vivemos a um ritmo tranquilo, fomos de bicicleta comprar pão, visitar vilas e cidades, passeámo-nos nos caminhos que bordejam o canal.
Provámos vinhos, cassoulets e outras iguarias locais, conversámos com gauleses e não só.
Fizemos compras em mercearias flutantes, visitámos livrarias históricas e castelos.

Divertimo-nos em conversas sem fim, rimos com os disparates de navegação, jogámos às cartas e talvez à pétanque e, mais importante, sobrevivemos a tantos dias, tanta gente, em tão reduzido espaço. ;-)

quinta-feira, junho 16, 2011

quarta-feira, junho 15, 2011

Sosseguinho

A esta altura já devemos navegar sem o stress dos primeiros dias. Ou se calhar encostamos à margem e só saímos de lá para ir devolver o barco. E pode ser que, pelo meio das árvores, consigamos ver o eclipse da Lua prometido para hoje.

segunda-feira, junho 13, 2011

Por aquele rio abaixo

Se tudo correr como planeado iremos até Narbonne e regressamos a Carcassonne: 147 quilómetros, 58 comportas.

domingo, junho 12, 2011

O tal canal

Inscrito também ele, no património mundial da Unesco, o Canal du Midi faz parte da rede vias navegáveis que ligam o Atlântico ao Mediterrâneo e é uma verdadeira obra-prima da engenharia francesa. Vamos ver se não o estragamos!

sábado, junho 11, 2011

All on board!!

Dia de compras para a semana que passaremos a bordo de um transatlântico como este. Embarque ao fim do dia.

sexta-feira, junho 10, 2011

Carcassonne

Cidade medieval por excelência, inscrita no património mundial da Unesco, um dia para explorar torres e ruelas.
Imagem: (c) IRÈNE ALASTRUEY - AUTHOR'S IMAGE

quinta-feira, junho 09, 2011

Toulouse

Começa-se o dia de avião. Adequado já que Toulouse é o berço do Airbus.
Mas não há tempo para devaneios, que o comboio nos espera para nos levar até Carcassonne.

Imagem: NOUGARO - FOTOLIA.COM

quarta-feira, junho 08, 2011

Canal du Midi

(foto: http://www.grandsites.midipyrenees.fr)

A vontade de fazer uma viagem pelos canais de França vem de longe, do dia, algures nos finais dos anos 70 ou início dos 80, em que os meus olhos se esbugalharam de espanto porque ... o que passava em cima da ponte e a da estrada ... era um barco.
Sim, vi, claramente visto, um barco que navegava sobre a estrada! Uau! Também quero!

(foto: http://www.grandsites.midipyrenees.fr)

E finalmente, uns 30 anos depois deste emocionante encontro, a mochila está feita, preparada para a partida de amanhã. (Ver Il était un petit navire)

"Não é preciso experiência" , é o que dizem as agências de aluguer, que continuam: " Dirigir um barco é mais fácil do que conduzir um carro.", frase que pode ser enganadora. E assim o comandante de ocasião espera que o seu barco de 12 metros e umas 10 toneladas seja tão facilmente manobrável como o Smart que o leva pelas ruas da cidade, o que pode conduzir a algumas situações interessantes, especialmente em comportas congestionadas.
(Adaptado de "The Ups and Downs of a Lockkeeper" - Jake Kavanagh)


A minha teoria sempre foi "Se é para todos, eu consigo." Vamos ver se não me engano muito...

quarta-feira, maio 04, 2011

Bin Laden e a amizade

Amizade, com A grande, muito grande, é a palavra que me vem frequentemente à ideia quando se fala de Bin Laden. Estranho? Eu explico:

Estávamos em Agosto de 1998 a uma semana da partida para uma viagem ao Quénia, e bum!, a embaixada dos EUA em Nairobi explode, causando centenas de mortes. Por detrás do atentado estava Bin Laden, personagem de que ouvi falar pela primeira vez.

O governo português desaconselhava as deslocações indispensáveis ao Quénia, a agência de viagens deixava nas nossas mãos a decisão, prontificando-se a restituir o dinheiro pago e juntando à carta (sim, que na altura ainda havia cartas!) os avisos negros que o governo britânico emitira.


Pesados os prós e os contras optei por não cancelar a viagem e dias depois juntava-me aos locais e aos recém-conhecidos companheiros de viagem em frente à embaixada destruída.

Partimos pelo Quénia fora, bem longe do terror do atentado. Vimos leões, elefantes, flamingos e quase tudo a que tínhamos direito, partilhámos com crocodilos as águas do Lago Turkana, comprámos sandálias feitas de pneu, à medida dos nossos pés, cantámos à volta da fogueira, sobrevoámos Masai Mara num balão de ar quente, e tanto, mas tanto mais.

Do Quénia trouxe belas recordações, o sabor da "minha primeira África", e sobretudo, a amizade forte e duradoura da Paula L e da Rute CC, em quem penso frequentemente quando ouço o nome de Bin Laden. Para elas, e também para a nossa próxima viagem, para os outros amigos que nos vão acompanhar, fica um post com sabor a amizade.


domingo, maio 01, 2011

Chez les Bretons: Londinium

Sempre disse que Londres não me seduzia, que à cidade faltavam alma e encanto, que os habitantes eram amorfos. O interesse em lá regressar não era muito e foi quase com a sensação de ir cumprir um dever que, no caminho para Kent, decidi ficar por lá alguns dias.

Londres estava em obras, a enfeitar-se para os Jogos Olímpicos que acolherá em 2012 e para o casamento real que se realizaria dali a um mês ... e estava linda!
Calor, céu azul e a Primavera a deixar parques e jardins com ar de telas impressionistas, gente simpática, disponível.

Afinal ... reconciliei-me com a cidade. Já não era sem tempo!