sábado, maio 17, 2008

Cafés com história - Les Deux Magots

As duas estátuas confucianas (magots) deram-lhe o nome, a elite intelectual e artística que lá se reunia deu-lhe a fama. Sartre, Simone de Beauvoir, Picasso, Hemingway, Rimbaud e muitos outros, sentaram-se às suas mesas a escrever, a discutir ou a conversar. A clientela de hoje instala-se na esplanada a olhar a igreja de St Germain des Prés, a ver desfilar parisienses e gente dos quatro cantos do mundo, a bebericar um chá ou um chocolate quente com sabor de outros tempos.

Há quem entre apenas para olhar e sentir a atmosfera de épocas passadas, há quem se junte com amigos a debater ideias, há quem folheie os jornais diários.
Mas o Les Deux Magots é apenas um dos muitos cafés literários de Paris. À nossa espera, quase ao lado, está o Flore e, um pouco mais distantes, a Brasserie Lipp e a Closerie des Lilas.

Dali ao Lipp era um bocado e todos os sítios que o meu estômago reconhecia [...] aumentavam o prazer daquele passeio. Havia poucos clientes na brasserie e, quando me sentei no banco encostado à parede, com o espelho por detrás e uma mesa à minha frente e o criado me perguntou se eu queria cerveja, pedi um distingué, que é uma grande caneca de litro, e uma salada de batata.


in Paris é uma Festa
E. Hemingway

segunda-feira, maio 05, 2008

Ils sont fous....

Um percurso de autocarro alterado devido a obras e dou comigo junto à Périphérique, uma espécie de CRIL parisiense. Zona descaracterizada, cheia de torres de apartamentos, enormes e sem alma, tristonha, vazia de gentes e de interesse.

Procuro uma estação de metro e eis que, sem nada que o fizesse prever, Obélix pragueja. Surpresa! Sem querer, sem saber, dou comigo na Rue René Goscinny, o pai de Astérix, Lucky Luke, Oumpah-pah e Iznogoud.

Uma livraria, balões de BD pendurados nos candeeiros. Pouca coisa, talvez, mas, a dose de poção mágica suficiente para transformar um recanto sem graça no abrir de livros tantas vezes saboreados.

domingo, maio 04, 2008

De olhos em bico

Apetece-lhe um khao guai (pequeno almoço tailandês), um prato de laap (salada de carne, do Laos) ou de pakon char poat koun (camarão com milho, do Cambodja)? Basta dirigir-se ao 13eme Arrondissement, mais conhecido por Bairro Chinês de Paris.
Junto às fábricas do que foi um bairro industrial dos arredores ergueram-se descomunais torres de apartamentos, residência dos muitos operários que nelas trabalhavam. O crescimento da cidade forçou a mudança da zona industrial levando consigo a maior parte dos habitantes. Apesar das rendas baixas, aos parisienses não agradou aquele bairro de arranha-céus sem alma e foram os desalojados e refugiados da China, Cambodja, Vietname, Laos e Tailândia, que, a partir dos anos 70, os ocuparam.

Hoje não é apenas um bairro, mas uma "cidade" asiática de 30.000 pessoas, uma comunidade quase autónoma onde é possível trabalhar, fazer compras, comer, viver, sem sair do ambiente oriental.
Na base da torres de 30 andares as lojas e restaurantes, os salões de chá e supermercados, ostentam placas com ideogramas chineses, tailandeses... O ano novo chinês é festejado "à grande e à francesa" com danças, desfiles, petardos e dragões. Há templos budistas, taoistas e pagodes, quase escondidos no meio de um parque de estacionamento ou num canto recatado de uma rua estreita.

O supermercado Tang Frères é um ícone, visitado diariamente por 10.000 pessoas (mais do que o Centro Pompidou). Para nós, ocidentais, incapazes de ler as etiquetas da maior parte dos produtos, é uma festa para os sentidos. Peixes desconhecidos, frutos e legumes de cores e formas insuspeitadas, cheiros invulgares e fortes e a música de fundo das muitas línguas que por lá se falam.

E, à saída, não são poucos os que fazem pintar o seu nome em caracteres chineses. Para dar sorte, dizem.

sábado, abril 26, 2008

Olhó passarinho

Nasceu o Olhó Passarinho, irmão mais novo do Mochila às Costas. Este novo blogue não é, ao contrário do que possa parecer, uma montra de fotografias mas apenas uma tentativa de me obrigar a fotografar sistematicamente. Uma fotografia por semana, é tudo o que me peço. Um passo na tentativa de vencer o marasmo em que caí ao limitar a actividade fotográfica a pouco mais que às viagens. Fica aqui a primeira. As próximas poderão ser vistas seleccionando o link ao lado.

sexta-feira, abril 25, 2008

Utile Dulci

Incomodada com o sabor desagradável de um medicamento que tomava, Maria Antonieta queixou-se ao farmacêutico da corte, Suplice Debauve. Nem mesmo o chocolate quente que bebia atenuava o mau gosto. Pelo contrário, parecia que o calor da bebida acentuava mais o trago horrível do remédio. Debauve teve a ideia de fabricar um preparado sólido, à base do mais puro cacau, onde o medicamento ficava disfarçado.
Maria Antonieta perdeu a cabeça e pediu mais variedades ... e surgiram misturas com canela, flôr de laranjeira, jasmim, café, mel e até pedacinhos de ouro.

Depois da revolução o farmacêutico abriu a primeira loja, a dois passos do Louvre, e inscreveu na fachada "Utile Dulci" - juntar o útil ao agradável.
O interior da boutique é hoje classificado como monumento histórico da cidade de Paris e simboliza um templo a que não faltam colunas e um balcão em forma de meia lua.

Não sendo, ainda possível colocar sabores num blogue fica entregue à imaginação de cada um deixar dissolver na boca um merengue finíssimo recheado de pedaços de amêndoas e avelãs caramelizadas, envolvidos numa espessa camada de chocolate negro, amargo e aveludado...


Fica também uma tradução, no mínimo delirante, de um site de informação.


Debauve & Gallais - Rue des Saints Pères, Paris

quinta-feira, abril 10, 2008

Au Lapin Agile, cabaré artístico

Mesmo em frente da vinha de Montmartre uma pequena casa côr-de-rosa com um coelho pintado na parede chama a atenção. Trata-se do Lapin Agile, o mais antigo dos "cabarés artísticos" de Paris.

O assassínio dos proprietários deu à casa o nome inicial, Cabaret des Assassins, nome que se manteve até 1875, quando o pintor e caricaturista André Gill desenhou um coelho a saltar de uma caçarola. De "Le lapin à Gill" ao actual "Lapin Agile" foi... um saltinho.

Local de encontro de músicos, pintores, cantores e boémios, hoje, como antigamente, recita-se, improvisa-se, cantam-se ou desafinam-se músicas próprias ou de outros. Hoje, como antigamente, sem microfone ou sistema de som, com o sabor de outrora.

Uma peça de teatro do americano Steve Martin, "Picasso at the Lapin Agile", colocou Einstein e Picasso lado a lado no cabaré a discutir o valor do génio e do talento.
Picasso foi, como se deduz, um dos habitués da casa, como o foram Utrillo, Braque, Brassens, Claude Nougaro. Conta-se mesmo que Picasso chegou a pagar um jantar com um quadro - Au Lapin Agile.

Ao que parece hoje as refeições são bem mais baratas.

domingo, março 30, 2008

Uma vinha no coração de Paris - "Clos de Montmartre"

Não são as cidades os meus espaços de eleição mas, como em tantos aspectos da vida, há excepções, e Paris é uma delas. Lá estão, claro, exposições, museus, e monumentos únicos mas é a pé, a deambular pelas ruas, que me sinto verdadeiramente bem, que fico com a ilusão de entrar um pouco na alma da cidade.
Parto ao acaso, acompanhada ou sozinha, máquina fotográfica a tiracolo, perco-me nas ruas e bairros, descubro e redescubro cantos e curiosidades. Como uma vinha a dois passos da Basílica do Sacré Coeur e da Place du Têtre.

Uma vinha a sério que se aperta em 1500 m2 de um terreno a norte da Basílica e que existe desde o século 15, altura em que produzia um vinho de fraca qualidade de tal modo diurético que se dizia que: "C' est le vin de Montmarte, qui en boit pinte pisse quarte" (Nota: as medidas pinte e quarte equivalem, respectivamente, a 67 cl e 93l).
A expansão de Paris ameaçou a vinha que foi salva em 1929 graças à dedicação do desenhador Francisque Poulbot, mas só a partir de 1996 a qualidade do vinho melhorou.
No primeiro domingo de Outubro a comunidade empenha-se nas vindimas, em ambiente de festa que inclui música e desfiles. Pela raridade, mais do que pela qualidade, as cerca de 1700 garrafas de "Clos de Montmartre" produzidas em 2007 foram vendidas a 45 euros cada.

À nossa!...

quinta-feira, março 27, 2008

Era uma vez o gigante Isoré...

Reza a lenda que Isoré, um rei mouro que governou Coimbra, atravessou os Pirinéus para tentar conquistar Paris. Pelo caminho fez uma paragem em Orléans onde ficou durante algum tempo e se entretinha a assaltar e matar os peregrinos que se dirigiam para Santiago de Compostela. Foi morto num combate com Guilherme d' Orange e enterrado no lugar onde caiu, pois era demasiado grande e pesado para que o pudessem transportar. O local passou a chamar-se Tombe d' Isoré e, mais tarde, Tombe Issoire.


A 19 de Maio de 2007 a lenda materializou-se na parede da escola infantil da Rue de la Tombe Issoire, em Paris, graças à imaginação das crianças da escola e às mãos da artista Corinne Béoust.

Ecoutez cette histoire qu’on nous a racontée
C’est l’histoire d’un géant qu’on appelait Isoré
Dans le Temps Isoré était vraiment méchant
Il passait tout son temps à tuer beaucoup de gens (bis)

Alors les gens de la ville se sont vraiment fâchés
Et puis, ils ont fini par chasser Isoré
Tout seul il est resté oh combien désolé
Alors il s’est caché dans la Grande-Vallée (bis)

Et le temps a passé, il s’est bien ennuyé
Il a réfléchi et puis s’est amendé
Il a promis juré de ne plus recommencer
Aux enfants de l’école, une lettre a envoyé

Les enfants d’Tombe-Issoire furent bien étonnés
Un jour de recevoir cette lettre démesurée
Au géant repentant appelé Isoré
Ils ont bien voulu tous donner leur amitié (bis)

Pour ne pas oublier cette histoire du passé
Sur les murs de l’école, nous l’avons dessinée
Et en bas du dessin nous sommes fiers de signer
Les enfants de l’école du géant Isoré (bis)

(cantada pelos alunos da escola no dia da inauguração)

sexta-feira, março 21, 2008

A estrela de Belém

Foi preciso um último pedaço de queijo de cabra para que Moulay nos desse a solução da adivinha: "nada" (ver post "Os meninos à volta da fogueira..." de 2 de Março).
Resolvido o enigma o céu foi, uma vez mais, o tema das conversas.
"Qual destas é a estrela do Pastor?", perguntou Véronique, a suíça. Demorei um pouco a perceber que falava do que para nos é a estrela de Belém.

"Partiram e eis que a estrela que tinham visto no Oriente ia diante deles até que, chegada sobre onde estava o menino, parou."
Mateus, 2:1-16

Não admira que Véronique não fosse capaz de a encontrar, já que o problema, bem mais complicado que a adivinha de Moulay, tem constituído um desafio para astrónomos de renome e, mesmo nos dias de hoje, está longe de solucionado e continua a entusiasmar cientistas. A polémica persiste. Um cometa, uma conjugação de planetas, uma supernova, como advogava Kepler, uma sequência destes sinais ou apenas o planeta Júpiter em conjugação com a Lua? É que Júpiter, no seu movimento retrogrado, "caminha" de leste para oeste nos céus e, depois de um breve periodo de "paragem", recomeça o movimento aparente normal "deslocando-se" nos céus de oeste para este.
Ou será que a estrela de Belém foi mesmo um milagre?

(inspirado em "O que era a Estrela de Belém?", de Nuno Crato)

quinta-feira, março 13, 2008

Ernest

À equipa tuaregue que nos acompanhava juntava-se um elemento "extra": Ernest. De aspecto muito mais modesto que os companheiros, estava ali para os ajudar, se bem que não recebesse qualquer remuneração.
Incansável, tão depressa o víamos a ajudar na cozinha como a procurar e cortar lenha para a fogueira da noite, a carregar e descarregar o material, a lavar a louça...
Mas era no contacto connosco que Ernest se revelava, realmente, único. Discreto, tímido até, sempre atento às nossas vontades, e, como se isso não bastasse, não raras foram as noites em que, apesar do cansaço, se sentava à volta da fogueira e animava o ambiente com músicas tiradas da espécie de guitarra que o acompanhava.

E no momento das despedidas deixou-nos sem fala surpreendendo-nos com uma prenda a cada um de nós: cestos, caixas forradas a papel e por si pintadas.
Ernest de DJanet ficará para sempre na nossa memória.

quinta-feira, março 06, 2008

Que me saiba perder para me encontrar

O deserto não se compadece de ninguém; endurece o corpo, esculpe a alma. É necessário suportar o calor do dia, o frio da noite, a ausência do sentido do tempo e do espaço.
Theodore Monod

Londe das paisagens verdejantes descobri no Sahara um reflexo da minha paisagem interior... Atravesso um mundo onde, por fim, o sonho coincide com a realidade.

André Chouraqui

domingo, março 02, 2008

Os meninos à volta da fogueira...

Aconchegamo-nos ao redor da fogueira para lutar contra o vento frio. Ao jantar de Natal reforçado que a agência providenciou, e que significa sopa, cuscus de legumes e ananás de lata numa "mesa" enfeitada com velas, juntamos pedaços dos nossos países distantes: figos com nozes para um sabor a Portugal, um doce coração suíço, um gaulês queijo de cabra e, surpresa!, uma garrafa de vinho tinto que nos aquece a alma.

O silêncio do deserto é quebrado com música e cantigas e Moulay, o elemento mais velho da nossa equipa touareg, entretem-nos com adivinhas:
"Melhor que o paraíso, pior que o inferno; os pobres não têm, os ricos não precisam. Se não comeres morres."
E durante alguns dias, quando tentávamos, em vão, descobrir a resposta, apenas lhe conseguimos arrancar um: "Tu cherches, tu trouves."

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Era uma vez... Orion

A noite chega, as sombras dos rochedos dissolvem-se na escuridão e, antes que a lua apareça, as estrelas cobrem o céu. A custo descobrimos Orion, perdida no meio de milhares de outras.

Filho de Posídon e de Gaia, o gigante Orion não passava despercebido às mulheres e deusas graças à sua beleza e porte atlético. Amante da caça, gabava-se de ser capaz de matar qualquer animal que encontrasse.

Um dia apareceu-lhe no caminho o maior escorpião que alguma vez tinha visto. Era maior que Orion, que era um gigante, maior do que qualquer animal que alguma vez vivera. Orion atacou-o, envolveram-se numa luta feroz mas o escorpião, de carapaça impenetrável à espada e flechas de Orion, foi o vencedor da contenda matando o guerreiro com uma ferradela venenosa.


Impressionado com o poder do escorpião e a bravura de Orion, Zeus levou ambos para os céus mas colocou-os de modo a que nunca estivessem juntos no firmamento. Assim, quando a Primavera começa, Orion desaparece no brilho do Sol e, no Outono é a vez doEscorpião ser engolido pelo horizonte do ocaso.

Adaptado de Zodíaco: Constelações e Mitos (Nuno Crato). O texto completo pode ser lido aqui


(Imagens retiradas da Internet)

domingo, fevereiro 24, 2008

Geometrias...

O observador não deixa de se espantar com a simplicidade das formas, com a precisão das texturas, com os padrões geométricos.

Ralph Bagnold

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Pus o pé, molhei a meia

Na manhã seguinte às últimas grandes chuvadas o carreiro do jardim parecia o rio Amazonas, tal a força e quantidade de água que por ele corria, e no murito junto ao portão formava-se uma queda de água que rivalizava com as cataratas Vitória. Era a ocasião ideal para estrear as novas botas de caminhada e testar a sua impermeabilidade. E, realmente, depois de percorrer o carreiro e permanecer uns bons minutos a desentupir as saídas de escoamento junto ao portão, com água a chegar aos tornozelos, os meus pés continuavam secos.

Mas, se aqui falo nas botas, é porque elas têm uma longa história.

Após cerca de uma década de muitos quilómetros, fiel companhia e bons serviços, as velhinhas botas de caminhada pediram reforma. Assim, pelo início do verão de 2006, ofereci-me um novo par. Confortáveis, boa aderência ao solo e absorção de choques, membrana impermeável Goretex. Vários quilómetros e alguns meses depois passo, pela primeira vez, um ribeirinho e ... pus o pé, molhei a meia. Impossível! Molhar o pé com umas botas Goretex?

Prontamente a loja onde as tinha adquirido resolveu o problema substituindo-as por um novo par, em tudo igual. Tão igual que mais alguns meses, mais umas caminhadas depois, na passagem do primeiro regato molhei, uma vez mais, os pés.
E uma vez mais a loja, passados que foram quase dois anos desde a primeira compra, as substituiu, desta vez por um outro modelo.

Mas o mais importante desta "história" e a razão deste post, não é a odisseia das botas mas o profissinalismo, honestidade e simpatia da equipa da Bivaque que, por iniciativa própria, não se poupou a esforços até que eu pudesse por o pé na água sem molhar a meia.

domingo, fevereiro 17, 2008

Tadrart em imagens

A partir de hoje o Mochila às Costas tem ligação directa aos álbuns de fotografias da viagem à Argélia. Para os ver basta "clicar" aqui ao lado. Os das restantes viagens serão acrescentados aos poucos.

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Il n' y a pas de plus grande émotion que d'entrer dans le désert

Primeiros passos, primeiro acampamento junto a altas paredes rochosas que formam com a areia uma espécie de beco sem saída. Acordo a meio da noite, olho os meus companheiros que dormem na areia, espalhados por aqui e acolá, enroscados, como eu, no aconchego do saco-cama. O vento que sopra não é demasiado frio e fico por instantes a olhar a paisagem a que a lua cheia emprestou magia. Os rochas são castelos de prata, as areias parecem ondas de um mar muito brilhante. E torno a adormecer com um sorriso na alma.
Manhã bem cedo, a rotina habitual: arrumar o "quarto", o pão e a bebida quente do pequeno almoço, encher o cantil, pôr a mochila às costas e partir.

Caminhamos no leito seco de um rio. As poucas árvores, secas todas elas, que nos fazem pensar numa savana seca e desolada, parecem transportar-nos para uma época em que tudo era verde, em que por aqui andavam elefantes e girafas.
Aos poucos a paisagem muda. Surgem rochas, surgem as primeiras dunas e até as nuvens vêm dar um ar da sua graça. O deserto envolve-nos numa mistura de cores, formas e texturas...


*****
Il n' y a pas de plus grande émotion que d'entrer dans le désert
J.M. le Clézio
in Gens des Nuages


sábado, janeiro 26, 2008

Por favor... desenha-me um carneiro

Mas ninguém nos desenhou carneiros, apenas girafas, bois, guerreiros e mulheres. Também não foi St Exupéry o autor dos "desenhos" mas quem, há alguns milhares de anos, por aqui andou. "Aqui" é a Tadrart, no Parque Nacional do Tassili, no sudeste da Argélia, onde o país se encontra com a Líbia e o Níger, uma das regiões do mundo mais ricas em arte rupestre.

Verdadeiro museu a céu aberto, precioso como um velho livro que se folheia cuidadosamente, os seus 80.000 km2 de areia e pedra têm estatuto de Património Mundial da Humanidade, da Unesco, de Reserva do Homem e da Biosfera.
Conheceu, como todo o Sahara, uma sucessão de fases húmidas e secas, de que a morfologia do planalto mostra os traços. Os inúmeros vestígios rupestres são provas espantosas das oscilações do clima, retratos de um passado bem diferente.

Girafas, gazelas e elefantes, pintados ou gravados nas rochas, velhos de 8.000 anos, vacas, guerreiros, cenas do dia-a-dia, com 3 ou 4 mil anos, são o que resta de um paraíso tropical há muito desaparecido.

E foi este o cenário, de gravuras milenares e areias vermelhas, o escolhido para o Natal de 2007.

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Pausa forçada

É sempre duro o regresso do deserto, o retorno ao trabalho, às confusões e barulhos do dia-a-dia. Mais ainda quando nos vemos privados de acesso à internet em casa. Utilizar a net do trabalho para actualizar o blog não seria visto com bons olhos e, por isso, a mochila tem estado arrumada a um canto, sem ver a luz do dia. Enquantos os problemas cibernéticos não se resolvem deixo uma imagem de um pôr-do-sol às portas do mítico Ténéré e a promessa de que I'll be back as soon as possible.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Have yourself a merry little Christmas

De mochila às costas parto amanhã para a Argélia para mais um Natal nas areias do Sahara. O destino é a região de Tadrart, perto de Djanet, uma zona de falésias esculpidas pelo vento, areias avermelhadas, banhadas pelo Sol e pela luz da Lua que vai estar cheia.
Não estando perto do blog no Natal deixo os melhores votos de boas festas, um super 2008 e a lindíssima interpretação que Katie Melua faz do clássico de Judy Garland: Have yourself a merry little Christmas.




Have yourself a merry little Christmas
Let your heart be light
From now on
your troubles will be out of sight

Have yourself a merry little Christmas
Make the Yuletide gay
From now on
your troubles will be miles away

Here we are as in olden days
Happy golden days of yore.
Faithful friends who are dear to us
They gather near to us, once more

Through the years we all will be together
If the fates allow
Hang a shining star upon the highest bough
And have yourself a merry little Christmas now




(Faithful friends who are dear to us
They gather near to us, once more

Through the years we all will be together
If the fates allow
But 'til then we'll have to muddle through, somehow

And have yourself a merry little Christmas now)

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Nas gargantas do Manambolo

No último dia o rio transforma-se: o leito estreita-se, as margens arenosas cedem lugar às gargantas rochosas, paredes ocre ou cinza que se elevam a muitos metros.
Pendurados nas falésias, em posições impossíveis, surgem os primeiros embondeiros. Aqui e ali pequenas cavidades escavadas na rocha, em sítios que nos parecem inacessíveis, albergam túmulos antigos.

Os pássaros desapareceram. Aqui é o reino dos crocodilos, que impedem o nosso já habitual banho nas águas vermelhas do Manambolo.
Reina o silêncio, cortado apenas pelo murmúrio das pagaias a rasgar a água.

Não sem nostalgia aproximamo-nos de Bekopaka, a primeira povoação desde a nossa partida, cinco dias atrás.
Os tsingy de Bemaraha, uma das razões fortes para o meu regresso a Madagáscar, estão apenas a uma noite de distância.

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Dr. Jekyll e Mr. Hide

Por último, os homens. Poucos, que a maior parte está à pesca, no rio, ou a trabalhar em alguma cidade distante. Seja qual for a hora, chegam com um sorriso no rosto e uma garrafa na mão. Um líquido turvo, rum caseiro ou "cerveja" de palmeira, que nos convidam a provar. Sentam-se com os nossos remadores, a conversa flui, como o álcool, riem alto e animados.

Ao vê-los juntos, tão entusiasmados, até custa a acreditar no que Sarindra nos conta. Na chegada a Bekopaka, final da nossa viagem, depois de receberem o pagamento pela descida do rio, os remadores gastam uma boa parte do dinheiro a comprar o que na aldeia não há: mantimentos, sabão, tecidos,...
E o que fazem os simpáticos aldeões com quem, uns dias antes, confraternizaram tão amistosamente? Pilham os remadores, roubam quase metade da carga que transportam!
E, uns dias mais tarde, na próxima descida com turistas, lá vêm de novo, sorriso no rosto, garrafa na mão, para uma alegre cavaqueira...

domingo, dezembro 02, 2007

As mulheres malgaxes

Depois das crianças chegam as mulheres. São jovens, na sua maioria, e trazem consigo mais crianças. Uma à ilharga ou ao colo, outra pela mão, além dos mais cresciditos que chegaram no pelotão da frente. Conversam, riem, põe-se ao corrente das novidades das aldeias a montante, pedem para transmitir um recado a jusante.

Outras, mais velhas, olham-nos sem uma palavra, um olhar que a dureza da vida encheu de indiferença e desalento.
Aproveitam todos os nossos desperdícios, em que pegam religiosamente como se de peças de porcelana fina se tratassem: uma garrafa de plástico para encher com a água que todos os dias é preciso ir buscar, o frasco de doce, vazio, como a garrafa, precioso para fazer a vez de um copo ou tijela, para guardar sementes.
Partem como chegaram, afastando-se, discretas, conversando umas com as outras até que as suas lambas coloridas desaparecem por entre a vegetação que separa a aldeia da margem.

domingo, novembro 18, 2007

As crianças malgaxes

A nossa chegada a uma margem desvia as aldeais da dureza das lides diárias: somos uma atracção. As crianças surgem em primeiro lugar. Muitas! Doenças, problemas de nutrição ou acidentes, que aqui envolvem afogamentos ou ataques de crocodilos, matam quatro das sete que em média as mulheres malgaxes têm. As que sobrevivem, pelo menos as destas zonas afastadas dos centros urbanos, têm um comportamento exemplar.

Somos recebidos com alegria, olham-nos com atenção, riem entusiasmados com as suas imagens nas máquinas digitais mas, passados os primeiros minutos de excitação, sentam-se perto de nós. E como são sossegados! Dê-se uma bolacha a uma das crianças e, em vez de a vermos afastar-se para comer o seu troféu longe dos outros, assiste-se ao repartir da pequena guloseima por todos, que esperam pacientemente a sua vez. Brincam sem gritos, sem disparates, sem que seja preciso que alguém mais velho os impeça de fazer algo que possa representar um perigo. Os mais velhos, muitas vezes com os seus 5 ou 6 anos, ocupam-se dos mais pequenos com um cuidado e desvelo impressionantes.

domingo, novembro 04, 2007

Gasys versus vazahas

Bem que insistimos mas não, a equipa de remadores não nos quis fazer companhia nas refeições. Querem comer à parte, poder falar e rir à vontade, comer sem os bons modos dos vazahas! (Bons modos, nós?!) E a comida dos vazahas não presta!

O que come, então, um malgaxe? Arroz! Sempre e muito, muito!
Pequeno-almoço, um alguidar, sim um alguidar!, cheio de uma argamassa de arroz-colante comido à mão. Almoço e jantar, uma porção igualmente generosa de arroz com folhas de mandioca, legumes ou molho. O arroz é o prato principal, a carne ou o peixe são apenas acompanhamentos. É impressionante a quantidade de arroz que comem. Dizem as estatísticas que cada malgaxe come 150 kg de arroz por ano, quantidade que quase triplica se o visado for de uma zona rural e fizer do esforço físico a sua forma de vida.
E o arroz, como quase toda a comida, é cozinhado sem sal, interdito por algumas etnias pois, por ser retirado do mar, pertence ao deus Zanhary.


E nem na bebida nos entendíamos. Enquanto os copinhos-de-leite dos turistas bebiam água engarrafada ou purificada com Micropur, os nossos bravos remadores preferiam as águas pardacentas do Manambolo às quais juntavam o indispensável rum de produção caseira e artesanal comprado nas aldeias por onde passámos e cujo teor alcóolico era suficiente para rescuscitar qualquer antepassado.

domingo, outubro 28, 2007

Manhã, tão bonita manhã

Como é hábito acordo antes dos outros - o que me fez merecer a alcunha de "estrela da manhã" - e sento-me à beira-rio.
O doce chlap das águas... O concerto estridente dos papagaios cinzentos que vemos durante o dia pára e dá lugar aos prrrrriiiiiiiii, aos uic-uic de outros pássaros, aos bzzzzzzzzzzzzzzz e ploc dos insectos. As estrelas apagam-se lentamente para dar lugar ao sol que pinta de vermelho a névoa que se levanta das águas...

Pouco a pouco o acampamento desperta. Aos sons da natureza juntam-se as vozes dos remadores, a louça a ser lavada, a preparação do pequeno-almoço.
As galinhas que nos acompanham passeiam-se junto às tendas. (Não o sabem mas hão-de fazer parte de um jantar.) O cheiro a café convida os mais resistentes a sair das tendas. A conversa escorre, animada.
Bom dia Manambolo!