domingo, junho 10, 2007

Malawi - Hot Sands


Podia ser uma aldeia qualquer, como tantas outras que atravessámos. Meia dúzia de palhotas, duas ou três mulheres a lavar a roupa num alguidar, uma outra a esmagar mandioca, miúdos a brincar. Podia, mas não é. Hot Sands, na baía de Senga, é uma aldeia de 2500 habitantes. Tem de tudo um pouco. Uma escola imensa, à dimensão da aldeia, que encontrámos fechada para férias, um mercado animado, uma lota onde se vende e compra o peixe trazido nas canoas de madeira dos pescadores; o prateado dos peixes que secam ao sol, redes de pesca e muita, muita gente, alegre, divertida, que aproveita a praia para uns momentos de lazer. Turismo local, coisa que mal vimos nos outros países que atravessámos. E nem faltava o tradicional vendedor de praia a oferecer os mais variados e curiosos artefactos!

sexta-feira, maio 25, 2007

(Pausa)



O muito trabalho obriga-me a tirar a mochila das costas. Não por muito tempo, espero. Cá estarei depois de 3 de Junho.

quarta-feira, maio 16, 2007

Malawi - Monte Mulanje

À nossa frente o desafio do dia: o monte Mulanje, uma impressionante parede de granito que se ergue a 3002 metros no meio de um magnífico tapete verde de plantações de chá. O ponto culminante, Sapitawa, significa "não vá lá", em linguagem local. Não vá lá porque os espíritos da montanha apoderam-se de quem ousar fazê-lo. Não fomos, ficámo-nos por um outro pico, duas dezenas de metros mais baixo.
A subida, se bem que não apresente dificuldades técnicas de maior, é dura. Um caminho bem traçado que sobe em íngremes "degraus" no meio de uma paisagem árida. O esforço reduz-nos ao silêncio, o grupo divide-se , cada um caminha ao seu ritmo. De quando em quando passam por nós carregadores locais transportando às costas pesadas pranchas de madeira, com uma facilidade e um ritmo que nos envergonham. Suados, esgotados, chegamos, finalmente, ao pico. Aaaaahhh, o doce sabor do descanso, o mar de verde lá em baixo, o silêncio...

E se a subida foi árdua, o que dizer da descida? Regressámos por um trilho que descia por entre cedros perfumados e arbustos cerrados. Inclinado, pedregoso, perigosamente escorregadio, a deixar marcas do esforço nos joelhos de muitos e no entorse da canadiana Karina que terminou a descida aos ombros dos guias.

quarta-feira, maio 02, 2007

Lago Niassa - lago Malawi


Dois dias de dolce fare niente nas margens do lago Niassa aqui chamado de lago Malawi. Uma praia partilhada, ao que parece, por hipopótamos que nunca vimos nem ouvimos. Rochedos de formas peculiares como a "tartaruga" que parecia sorrir para nós todas as manhãs.
Da árvore em frente uma águia pesqueira, cabeça branca que se destaca, lança-se num vôo vertiginoso para rasar a água e, com uma precisão impresionante, agarrar o peixe que lhe lançamos.




Uma ilha em frente, a ilha dos dragões, varanos do Nilo de cerca de dois metros que, ao sol, espiam os nossos movimentos. E as águas transparentes e mornas, pejadas de peixes de azul e amarelo vivos. Como se nadássemos num aquário. Não admira. O lago alberga uma fabulosa diversidade de peixes, mais espécies do que as que existem em toda a Europa, que fazem as delícias do mundo ocidental e que pode ver aqui.

quinta-feira, abril 26, 2007

África à beira da estrada


Mais do que uma simples intersecção de estradas ou pistas, um cruzamento é um posto de vendas. No Malawi, onde a densidade populacional é elevada (144 habitantes por quilómetro qadradro contra, por exemplo, os 15 da Zâmbia ou os modestos 3 do Botswana) até as bermas são verdadeiros centros comerciais. Tudo se vende. Os amendoins, as frutas, a farinha e o açúcar, a cerveja e o detergente, mas também as roupas, os alguidares, a pá. E os móveis, os colchões e os caixões. Reparam-se bicicletas e rodas de carroças, vendem-se galinhas... Conversa-se, discute-se.. vive-se.
A África fervilha à beira da estrada.

quinta-feira, abril 12, 2007

Malawi - Nando´s


O símbolo, um escudo com um galo de Barcelos, não deixava margens para dúvidas. O Nando´s, a famosa cadeia de restaurantes de frango grelhado, tem origem portuguesa. Encontrámo-lo no Malawi, numa rápida passagem por Lilongwe, mas podia ter sido no Botswana, na África do Sul... ou no Sri Lanka, na Austrália, no Canadá, no Reino Unido, ... se por lá tivessemos passado.

O famoso Nando´s Peri-Peri Flame Grilled Chicken "é um milagre mas não cai do céu. Não, não, esta 8ª maravilha do mundo tem uma longa história por trás. Uma história de muitos séculos, quando os exploradores portugueses descobriram Moçambique e um tesouro chamado Africa Brid´s Eyes Chili." E o Nando´s não seria o que é sem Nandocas, os que, um pouco por todo o mundo, ajudam a fazer de uma refeição uma experiência única.
Minhaaaaammmm. E, para quando um Nando´s em Portugal?

terça-feira, abril 10, 2007

Zâmbia - Povo que lavas no rio...


Em África, como em qualquer parte do mundo, os rios desempenham funções vitais. À sua volta a actividade fervilha, seja nas artes da pesca, no lavar de roupas e corpos, no vaivém das canoas que permitem o contacto entre comunidades, a troca ou aquisição de produtos.
E nos sítios onde uma barcaça de ligação entre as margens afasta os crocodilos, o rio transforma-se numa festa. Mulheres, de capulanas garridas, juntam-se em grupos, conversam, riem, trocam os últimos mexericos e as mais recentes novidades, enquanto roupas e tachos são lavados nas águas pardacentas. E nem a passagem do nosso camião perturba a alegria das crianças que, por entre risos e salpicos, se entretêm num banho refrescante, na pausa que fizeram na recolha de água.

sábado, abril 07, 2007

Zâmbia - Parque de South Luangwa

Com os seus mais de 9000 km2 o Parque de South Luangwa é um dos maiores santuários de vida selvagem do mundo. O coração do parque, o rio Luangwa, alberga crocodilos e uma impressionante população de hipopótamos que é calculada em 50 por cada quilómetro do rio.
No safari que fizemos vimos antílopes, kudus, manadas de elefantes, alguns de muito, muito perto, zebras, girafas, cegonhas, águias.. Mas continua a faltar-nos os grandes felinos. Leões e leopardos.. nem sombra.


À noite, depois de um magnífico pôr-do-sol sobre as águas do rio, aproximámo-nos da margem na tentativa, vã, de registar os sons dos hipopótamos. Mas, a certa altura, achámos por bem desconfiar de um rochedo que se movia a uma dezena de metros e regressámos prudentemente ao acampamento. Em boa hora o fizémos pois, como não demorámos a perceber, era um hipopótamo que se aproximava do parque e chegou mesmo a entrar na zona do pequeno bar, sob o olhar assustado de quem lá estava.

domingo, abril 01, 2007

The longest shortcut


À saída de Kafue tomámos um atalho que nos faria chegar umas 3 horas mais cedo a South Luangwa, mesmo a tempo de um desejado banho na piscina do parque. Uma pista tortuosa, ora difícil de encontrar, ora inexistente, que em partes remotas de África os mapas nem sempre estão de acordo com o que se encontra no terreno.
Perdemo-nos, claro, não uma, mas várias vezes, e a miragem do banho esfumou-se na poeira da picada. Passámos aldeias com mulheres e crianças reunidas à volta das cubatas. Nem um homem, provavelmente a trabalhar nos campos, ou mais longe, nas cidades. Nem um velho, provavelmente porque lá não chegam...
Parámos para confirmar se estávamos no caminho certo. O olhar de estupefacção e os risos que se lhe seguiram não deixaram margem para dúvidas. Não, não só não estávamos no bom caminho, como nos estávamos a afastar. Muitas horas, vários quilómetros e aldeias depois, entrámos, aliviados, nos limites do South Luangwa Park.
Pouco duradouro foi, no entanto, o alívio, pois, ao atravessarmos o leito seco de um rio, o camião assentou a traseira numa das margens e dali não quis sair.



A noite caía e, à nossa volta, o parque com os seus animais (hipopótamos, leopardos, leões, elefantes...) Um vigia de cada lado para avisar da presença de algum animal e, mãos à obra.
Sob o olhar curioso de um grupo de elefantes que se aproximara, com pás, pedras, troncos, muito suor e algumas horas de esforço, conseguimos, finalmente, libertar o veículo e chegar, à meia-noite, à segurança do acampamento.
Aaaaaah.. as surpresas que um atalho pode trazer!

terça-feira, março 27, 2007

Um adeus ao Zambeze


Ainda sob o efeito das emoções da noite partimos ao amanhecer para um safari, a pé, junto ao acampamento. Animais... não encontrámos nenhum, apenas pegadas. De elefante, pois claro, e também de hipopótamos, babuínos, hienas, rastos de cobras.
Pegadas e dejectos fornecem, a quem os saiba ler, informações preciosas. Há quanto tempo os animais passaram, quantos eram, qual o tamanho, o que comeram... E não só, pois, na natureza, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Que o digam os babuínos que desfazem os excrementos de elefante para se alimentarem das sementes que estes engolem mas não digerem.
De volta ao rio, desta vez para, num barco a motor, regressarmos ao parque de Kafue, ponto de partida da nossa expedição pelas águas do Zambeze. O rio transforma-se. A velocidade enfraquece o elo de ligação com o rio que os dias a pagaiar nos transmitiram, mas, pelo menos, podemos, agora, aproximarmo-nos dos animais e fotografá-los. E, se há dias, receávamos a presença dos hipopótamos, são agora eles que fogem, assustados com o barulho do motor.

sábado, março 17, 2007

Adivinha quem veio jantar



Na última noite de acampamento selvagem, cansados das emoções do dia, recolhemos cedo às tendas, ao som de um impressionante coro de hipopótamos. "Estão a acasalar!", esclareceu Gerard, acrescentando: "Não se atrevam a sair da zona do acampamento esta noite."

Acordo a meio da noite com barulhos, fortes, mesmo junto à entrada da tenda. Um animal, sem dúvida, mas qual? Uma daquelas espécies de javalis (phacochoerus africanus) que por aqui há? Ao meu lado a Nicole, tampões nos ouvidos para que o som dos hipopótamos não a impedisse de adormecer, nem se mexe. Hesito em sair da tenda e ver o que se passa. Mas.. e se dou de caras com o animal, seja lá ele qual fôr, e o assusto? Ná...é melhor ficar quieta e não abrir o fecho.
Os barulhos continuaram, a centímetros da tenda. O ruído de ramos e folhas fortemente agitados, um ramo que se parte, pedaços que caem sobre a tenda. Macacos a saltar de ramo em ramo? À noite?
Uma meia hora depois o acampamento regressa ao silêncio e consigo, finalmente, adormecer.

Na manhã seguinte o mistério foi desfeito. Não, não foram javalis nem macacos os visitantes nocturnos mas um enorme elefante que entrou no acampamento e estacionou frente à entrada da nossa tenda para jantar, arrancou folhas e ramos, felizmente não muito grandes, que caíram sobre a tenda, tudo diante do olhar impotente de Gerard e Chris, que à distância e em silêncio, assistiram a tudo, aterrados com a hipótese de que o ruído de um fecho ou de vozes pudesse assustar o animal e desencadear uma fuga descontrolada por entre as tendas, de resultados imprevisíveis...

domingo, março 11, 2007

Retirada estratégica

Não foi um acordar qualquer. O dia nasceu tingindo de vermelho as águas do Zambeze, envoltas num (quase) silêncio que ninguém ousou quebrar, e a que os sons da selva emprestavam uma pincelada de magia. A manhã estava ainda mais bela que a anterior, a temperatura ideal, o vento suave e, uma vez mais, de feição. Pela primeira vez, segundo o guia, soprava nas nossas costas e ajudava a navegação, já que o habitual naquela zona, era tê-lo de frente. "You lucky guys!" Indeed...
As margens desfilavam cheias de vida, de sons, de cheiros. Elefantes, hipopótamos, búfalos, aves, aldeias...



Paragem para o almoço e eis que Chris nos avisa da presença próxima de um elefante e sugere que regressemos às canoas para o irmos ver em segurança.
Surpresa! Não era um, mas vários, que se aproximavam do rio para matar a sede. O tempo parou nos minutos em que ali estivemos, em silêncio, a vê-los, mesmo pertinho, na margem. Tranquilos, imponentes, atentos à nossa presença que controlavam com um olhar para se assegurarem que não oferecíamos qualquer perigo. Mágico!
Já em solo firme e, desta vez a pé, aproximámo-nos deles, cuidadosamente e a uma distância segura. Mas a sua curiosidade foi tão grande que, em breve, éramos nós os observados e lentamente, enquanto comiam, foram-se aproximando, fechando-nos num semicírculo em torno das canoas e não nos deixaram outra hipótese que não fosse uma retirada estratégica para o rio e uma partida mais cedo do que o previsto.

quarta-feira, março 07, 2007

Mr Douglas


Um acampamento selvagem nas margens do Zambeze transforma uma ida "à casa de banho" numa quase-aventura, principalmente à noite, quando a maior parte dos animais está mais activa. Há que ter cuidado, não se afastar demasiado das tendas, estar atento ao mínimo ruído e, no caso de um encontro demasiado próximo com algum animal, a regra é "Don´t panic!" Não apontar a lanterna para o local de onde vem o som, não a acender se estiver desligada, não gritar, não fazer nada que o possa assustar e regressar ao acampamento tão discreta e lentamente quanto possível. Pois...
Mas não se parte sozinho para uma excursão fisiológica. Além do indispensável isqueiro para queimar os papéis, connosco vai Mr Douglas, a pá, que está permanente e orgulhosamente cravada no centro do acampamento e que utilizamos para ocultar os vestígios da nossa incursão. É indispensável fazê-lo, não só para manter o local visualmente limpo mas para que o odor não atraia visitantes menos simpáticos, como as hienas.

E, porque será que nas noites de acampamento selvagem ninguém sentiu necessidade de sair da tenda à noite?

domingo, março 04, 2007

Cruzeiro do Sul

Acampámos numa "quase-ilha" arenosa e com vegetação rasteira. Atrás das tendas, a curta distância, um elefante, um velho macho solitário, pastava tranquilamente enquanto algumas garças nele pousavam, indiferentes à piroga com pescadores que se aproximara para a recolha das redes.
À noite, em volta da fogueira, embalados pelos sons dos hipopótamos que nos chegavam não muito distantes, entretidos por alguns pirilampos e por um minúsculo escorpião que decidiu visitar-nos, o céu foi o tema das conversas.

Ao contrário do nosso hemisfério onde existe uma estrela, a Polar, que indica o norte, não há, abaixo do Equador, nenhuma que aponte o Sul, que fica numa zona do céu que, aos nossos olhos, parece vazia - o Saco de Carvão. O Cruzeiro do Sul e duas das estrelas mais brilhantes da Via Láctea, Alpha Centauri e Beta Centauri, dão-nos um meio de encontrar o Sul.

Adormecemos embalados pelos sons da selva, que nos pareciam cada vez mais próximos...

quinta-feira, março 01, 2007

Zâmbia - Easy on the Zambezi



É com um nó na garganta que empurramos as canoas para a água e partimos para o primeiro de três dias de aventura. "Oh my God!" exclama, sem cessar, Carla, uma das inglesas do grupo, que na véspera confessara o seu medo de estar a viver os últimos dias de vida. Mas, após as primeiras pagaiadas, o nervosismo dissipa-se, descontraímo-nos e, então sim, começa a nossa expedição pelo Zambeze.
Deslizamos suavemente ajudados pela corrente forte do rio e pela brisa morna que sopra nas nossas costas. A África desfila diante dos nossos olhos como deve ter surgido aos dos Serpa Pintos e Livingstones, pura, selvagem, intacta, longe do controle e relativa segurança dos parques nacionais.
Há aldeias, escassas, junto ao rio, onde as mulheres lavam a roupa e os miúdos, que nos acenam alegremente, tomam banho. Manadas de elefantes pastam indiferentes ao nosso cortejo.
De quando em quando um restolhar junto à margem denuncia a presença de crocodilos que não conseguimos ver.
A distância segura, que é como quem diz, a uns 20 ou 30 metros, passamos manadas de hipopótamos para quem a nossa presença não merece mais do que uma olhadela curiosa. E nem a cabeça de um deles que, de repente, se ergue nas águas a uns escassos dez metros das canoas e nos faz pagaiar com uma energia que não sabíamos ter, consegue perturbar a magia daqueles instantes.

domingo, fevereiro 25, 2007

Zâmbia - o Zambeze, de novo


Começa-se por ler e assinar uma declaração onde afirmamos estar conscientes de que a actividade que vamos iniciar é potencialmente perigosa e por indicar o nome de quem contactar em caso de acidente. Glup!
Carregamos as canoas com tendas, roupas e alimentos e logo Chris, que será chefe da nossa expedição, nos alerta para os perigos do rio, para as regras de segurança.
As águas do Zambeze estão infestadas de crocodilos e, por isso, as saídas e entradas nas canoas só podem ser feitas depois do seu aval. Mãozinhas na água quando não se está a pagaiar... ná!, que dá jeito continuar com duas.
Mas o maior perigo vem, não dos crocodilos, mas das muitas manadas de hipopótamos que cruzaremos. O hipopótamo, que nos zoos nos parece um bichinho simpático e pachorrento, ataca. E, quando o faz, seja porque se assusta, porque invadimos o seu território, por protecção das crias ou, simplesmente, porque nos atravessámos no seu caminho, fá-lo com uma violência desmesurada. Uma mísera canoa é um brinquedo para as suas poderosas mandíbulas e um humano poucas hipóteses tem de sobreviver.
Chris seguirá na frente, os seus olhos habituados a distinguir animais na mais leve turbulência. Com hipopótamos a poucos metros a regra de ouro é passar discreta e rapidamente, obedecendo cegamente às indicações gestuais que nos fôr dando. "No words, no photos, just row, row, row as fast as you can!"
Glup! Glup!

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

To see the world in a grain of sand


To see the world in a grain of sand,
And to see heaven in a wild flower,
Hold infinity in the palm of your hands,
And eternity in an hour.

William Blake
Auguries of Innocence

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Silêncio...


"Falar do deserto não será, em primeiro lugar, calarmo-nos, como ele, e prestar-lhe homenagem não com as nossas vãs tagarelices mas com o nosso silêncio?"

«Parler du désert, ne serait-ce pas, d’abord, se taire, comme lui, et lui rendre hommage non de nos vains bavardages mais de notre silence ?»

Théodore Monod

domingo, fevereiro 18, 2007

La vie Théodore

"La vie Théodore", uma canção de Alain Souchon, presta-lhe uma verdadeira homenagem. Escolhida pelo cantor e pelo projecto Douleurs Sans Frontières para ajudar as crianças doentes de todo o mundo a esquecer um pouco o seu sofrimento, pode escutá-la aqui.

E, para encerrar os posts de T. Monod, nada melhor do que lhe dar a palavra e ler os seus conselhos a quem se aventura pelo deserto.


La Vie Théodore
(Alain Souchon)

On s'ennuie tellement (x4)
Alors la nuit quand je dors
Je pars avec théodore
Dehors (x4)
Marcher dans le désert
Marcher dans les pierres
Marcher des journées entières
Marcher dans le désert
Dormir dehors
Couché sur le sable d'or
Les satellites et les météores
Dormir dehors
Il faut un minimum
Une bible, un coeur d'or
Un petit gobelet d'aluminium
Il faut un minimum
Si loin de la nature ici
Le coeur durci
On est si loin de l'air
On est si loin du vent
Si loin du grand désert
Si loin de l'océan
Alors la nuit quand je dors
Je pars avec Théodore
Dehors (x4)
Marcher dans le désert
Si loin de la nature ici
Le coeur durci
Chercheur de trésor
De brindille et de phosphore
D'amour humaine et d'effort
Chercheur de trésor
Il faut un minimum
Une bible, un coeur d'or
Un petit gobelet d'aluminium
On s'ennuie tellement (x4)

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Théodore Monod, o Senhor do Sahara

Naturalista, erudito e explorador como os grandes do século XVIII, Théodore Monod, com quem caminhámos em muitos dos post dedicados ao deserto branco, nasceu em Rouen, França, em Abril de 1902 e faleceu a 2 Novembro de 2000 depois de uma greve de fome pela abolição das armas nucleares.
Manifestou-se muito cedo o seu interesse pela natureza à sua volta: plantas, animais, rochas ou fósseis, nada escapava à sua curiosidade infantil, ao seu desejo de conhecer, de saber.

Il est toujours dans les papiers, les livres, les carnets. Pour son plaisir il copie des fragments de fables, ou les noms des animaux préhistoriques, d' après une géologie. (Livre de Théodore Monod, Fevereiro 1909)

Depois de estudos superiores em Biologia e Geologia foi colocado na Mauritânia, no Département de Pêches et Productions Coloniales, em St-Étienne. Para regressar a Paris teve de ir até Dakar, no Senegal, de camelo.
Estavam abertas as portas do deserto, que percorreu, como ninguém, de lés a lés. Milhares de quilómetros a pé, de camelo, estudando sítios e gentes, areias e animais, plantas e rochas, com o olhar apaixonado do cientista e humanista que foi. Mais de sessenta anos de explorações que terminaram no Yémen, em 1995, onde, antes de perder a visão, olhou o Sahara pela última vez, com 93 anos.

Uma vida fascinante que pode conhecer um pouco melhor aqui .

domingo, fevereiro 11, 2007

Egipto - E, na primeira oportunidade, voltas a partir...



Não, não é agradável [...] os salpicos da regurgitação do camelo, a comichão da carraça nas calças, a água salobra, a comida com areia, as noites ventosas. Os desconfortos desta vida são muitos.[...]
A paragem do meio-dia é tórrida? Este vento diabólico? Esta noite gelada? Não te queixes. Suporta. Tem paciência. Cerra os dentes. A vingança virá mais cedo ou mais tarde.
De resto conheço-te bem. Quando ela vier, essa vingança tão esperada, quando te deitares, saciado, com iguarias delicadas que não te estalaram sob os dentes, saciado com uma água incolor, sem pêlos de bode, numa cama de sibarita , sob um tecto, no quente, então, em vez de saboreares de forma duradoura a tua felicidade, muito rapidamente, assim que o grande cansaço das tuas caminhadas solitárias estiver esquecido, então começas a sentir falta das tuas rudes etapas, dos teus pés escalavrados, dos teus lábios gretados, dos teus sonos enroscado sob as estrelas.
E, na primeira oportunidade, tal como eu, voltas a partir...

Théodore Monod
in A Esmeralda dos Garamantes



Non, ce n' est pas agréable [...] les éclaboussures de régurgitat camelin, le rostre de la tique dans ta culotte, l' eau saumâtre, les gruaux sablés, les nuits venteuses. Les désagréments de cette vie sont copieux. [...]
La halte méridienne est torride? Ce vent diabolique? Cette nuit glacée? Ne te plains pas. Supporte. Patiente. Serre les dents. La revanche, tôt ou tard, viendra.
D' ailleurs, je te connais bien. Quand elle sera venue, cette vengeance tant esperée, quand tu coucheras , rassasié de mets délicats qui n' auront pas craqué sous la dent, désaltéré d' une eau incolore, sans poils de bouc, dans un lit de sybarite, sous un toit, au chaud, alors, au lieu de savourer durablement cette félicité, très vite, dès que la grosse fatigue de tes marches solitaires sera oubliée, alors tu te prendras à regretter tes rudes étapes, tes pieds écorchés, tes lèvres éclatées, tes sommeils recroquevillé sous les étoiles.
Et, à la premiére occasion, comme moi, tu repartiras...

Théodore Monod
in L' Émeraude des Garamanthes

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Egipto - O deserto é uma lição


Mas a grande lição do deserto continua a ser a paciência, a humildade, a submissão à realidade, benéfico exercício para um orgulhoso primata, demasiado tentado a considerar-se o centro do mundo e o rei da criação. [...] Aqui, no deserto, não se comanda, obedece-se: este poço está aqui e não ali e o seguinte está a 650 quilómetros, nem mais nem menos, é pegar ou largar meu bom amigo: se isto não lhe agrada, não vá lá, fique em casa a ver TV ou a ler policiais, mas, se entrar no Sahara, então entre no jogo e aceite ver o seu pueril orgulho ridicularizado pela areia, pelos espinhos ou pelas pedras, pelo vento, pelo frio e pelo sol.

Théodore Monod
in A Esmeralda dos Garamantes



Mais la grande leçon du désert c' est encore la patience, l' humilité, la soumission au réel, bénéfique exercice pour un orgueilleux primate, trop tenté a se prendre pour le centre du monde et le roi de la création.[...] Ici, au désert, on ne commande pas, on obtempère: ce puits est ici et non là, et le suivant est 650 quilomètres plus loin, pas un de moins, c' est à prendre ou à laisser, mon bon ami: si ça ne vous plait pas, n' y allez point, restez chez vous, à regarder la "télé" ou à lire des policiers, mais si vous "entrez" au Sahara, alors, jouez le jeu et acceptez de voir votre puéril orgueil bafoué par le sable, l' épine ou le caillou, le vent, le froid et le soleil.

Théodore Monod
in L' Émeraude des Garamanthes

Egipto - Acampamento




Ei-lo por fim descoberto, esse pequeno paraíso de uma noite. Apressamos o andamento nos últimos passos e depois, de súbito, é a paragem, a descarga dos camelos: depois do longo dia, do seu calor, das suas misérias, eis a grande pacificação.[...] É verdade que amanhã é preciso recomeçar, muito cedo, a caminhada. Não o ignoramos mas queremos um instante, esquecê-lo para nos entregarmos totalmente às volúpias indescritíveis da hora: os músculos esgotados reencontram o fraternal contacto da areia, dentro de instantes o chá-xarope virá deleitar o nosso cansaço e depois iremos poder, por algumas horas, viver num sítio, viver – grande maravilha – imóvel, isto é, ler, escrever e sobretudo não fazer nada; olhar, escutar, esperar, ver a noite cair sobre a imensidão vazia, e devorar as dunas e os fiéis cortejos celestes empreenderem a sua caminhada quotidiana: é a tua vez Antares, é a tua vez Sirius, caminha, caminha, eu paro.

Théodore Monod
in A Esmeralda dos Garamantes




Le voici découvert enfin, ce petit paradis d' un soir. On presse l' allure pour les derniers pas et puis, c' est, tout soucain, l' arrêt, le baraquage: après la longue journee, sa chaleur, ses misères, voici le grand apaisement.[...] Sans doute faudra-t-il reprendre demain, bientôt, la marche. On ne l' ignore pas, mais on veut, un moment, oublier pour se livrer tout entier aux voluptés indicibles de l' heure: les muscles recrus retrouvent le fraternel contact du sable, dans un instant le thé-sirop viendra réjouir nos fatigues, et puis on va pouvoir, quelques heures, vivre sur place, vivre – belle merveille – immobile, c' est a dire lire, écrire et, surtout, ne rien faire: regarder, écouter, attendre, voir se refermer la nuit sur l' immensité vide, les ombres deegringoler des falaises et dévorer les dunes et les fidèles cortèges célestes entreprendre leur quotidienne étape: Antarès, à ton tour, Sirius, marche, marche, moi je m' arrête.

Théodore Monod
in L Émeraude des Garamanthes

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Egipto - O deserto a pé


É a pé que se sente verdadeiramente o deserto! Sozinhos, longe dos companheiros, imersos numa paisagem irreal, envolvidos por um silêncio tranquilizador, somos insignificantes, um minúsculo ponto num imenso mar de areia. Tudo ganha uma nova dimensão, pormenores que, de outro modo, passariam despercebidos, ganham estatuto de vedeta: a pedrita com uma forma peculiar, a ponta de sílex ou o pedaço de casca de ovo de avestruz – vestígios de outras épocas – a rocha que a acção dos elementos rendilhou, as areais douradas ou ocres onde o vento deixou a sua impressão digital...
As dunas que subimos com esforço, quando as pernas acusam o cansaço dos muitos quilómetros de marcha, quando os 4 ou 5 quilos da mochila se tornam insuportáveis...
E é também, e, talvez, essencialmente, um convite à reflexão, um mergulho ao interior de nós próprios.

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Egipto - Théodore Monod não conheceu a Christianne



O problema da leitura num camelo continua sem solução prática. E é pena, pois os enormes ócios do mearista [...] bem mereciam conseguir uma melhor utilização do tempo do que pensar na suavidade nocturna, nas analépticas virtudes do chá dessa noite ou em qualquer impossível limonada gelada. Ora, é demasiado evidente que os editores nunca pensaram senão em leitores imóveis, que não se dobram ao meio uma vez em cada metro, mil vezes por quilómetro, quarenta mil vezes por dia e, ainda mais, empoleirados no alto por vezes perigosamente ventoso de um veículo de ritmado e brutal balanço.


Théodore Monod
in A Esmeralda dos Garamantes



Le problème de la lecture à dos de chameau demeure sans solution pratique. Et c' est dommage car les énormes loisirs du méhariste [...] méritaient bien de connaître un plus utile emploi du temps que de songer à la douceur de la nuit, aux analeptiques vertus du thé de ce soir, ou à quelque impossible citronnade glacée. Or, il n' est que trop évident que les éditeurs n' ont jamais songé qu' à des lecteurs plus ou moins immobiles, non pliés en deux une fois par mètre, 1000 fois par kilomètre, 40000 fois par jour et davantage, perchés au sommet souvent redoutablement venteux d'un véhicule au rythmique et brutal tangage.

Théodore Monod
in L'Émeraude des Garamanthes

domingo, janeiro 28, 2007

Egipto - O ritmo dos dias


A vida sob o céu, no centro de uma paisagem de horizontes quase sempre circulares, tendo como "tecto" uma cúpula hemisférica completa onde irão inscrever-se, durante o dia, o curso do sol, durante a noite a lenta deslocação das constelações: mesmo sem relógio, o viajante saberá sempre as horas e sentir-se-á, tanto de dia como de noite, situado no centro do relógio astronómico, o único a regular a sua existência quotidiana.
Pois aqui vive-se ao próprio ritmo do cosmos; noutro sítio faz-se batota, aqui obedece-se, tal como os outros animais; o dia é o dia, a noite é a noite, e o homem, animal diurno, levanta-se ao alvorecr e adormece na obscuridade regressada.

Théodore Monod
in A Esmeralda dos Garamantes



La vie sous le ciel, au centre d'un paysage aux horizons le plus souvent circulaires, avec pour "toit" une coupole hémispherique complète où vont s inscrire, le jour, la course du soleil, la nuit le lent cheminement des constellations: même sans montre, le voyageur saura toujours l' heure et se sentira, de jour comme de nuit, placé au centre même de l horloge astronomique qui va seule ordonner son existence quotidienne.
Car on vit ici au rythme même du Cosmos; allieurs on triche, ici on obéit, comme les autres bêtes: le jour est le jour, la nuit est la nuit, et l homme, animal diurne, se lève avec les premières blancheurs de l aube et s' endormira dans l' obscurité revenue.

Théodore Monod
in L' Émeraude des Garamanthes

sábado, janeiro 27, 2007

Egipto - Monotonia do deserto


Monótono o deserto? Só por graça! Para o cego sem, dúvida, para o autêntico, o fisiológico, tal como para o outro, o viajante banal, vulgar, sem curiosidade e que não sabe ver nem olhar. Mas para o "iniciado" quantas coisas para observar, para descobrir, aliás, mais frequentemente para ler no solo [...] E até mesmo onde, à escala da paisagem, a monotonia parece ter-se instalado, pode sempre surgir o imprevisto: que iremos encontrar atrás daquela ondulação do terreno, atrás daquele cordão de dunas, no topo daquela falésia, que lugar pré-histórico, que pássaro, que planta e, na salmoura desta sebkha, que crustáceos?

Théodore Monod
in A Esmeralda dos Garamantes





Monotone, le désert? Monsieur veut rire! Pour l aveugle, sans doute comme pour l autre, le voyageur banal, ordinaire, sans curiosité et qui ne sait ni voir ni regarder. Mais pour qui a "bon pied, bon oeil", pour l initié, que de choses à obsrever, à découvri, le plus souvent d ailleurs à lire sur le sol[...] Et même où à l échelle du paysage, la monotonie semble s installer, l' imprévu peut toujours, à l improvise, surgir: qu' allons-nous trouver derrière ce repli de terrain, derrière ce cordon de dunes, au sommet de cete falaise, quel site préhistorique, quel oiseau, quelle plante, et , dans la saumure de cette sebkha, quels crustacés?

Théodore Monod
in L Émeraude des Garamanthes

domingo, janeiro 21, 2007

Egipto - Os primeiros passos


Começa cedo uma manhã no deserto. Ainda o sol não nasceu e já Peter, o nosso guia, nos acorda com o seu " À taaaaaaaaaable!"
Há que arranjar coragem para enfrentar o frio que nos espera fora do aconchego do saco-cama, sacudir a areia com que o vento se encarregou de nos cobrir durante a noite. A higiene é sumária, como não podia deixar de ser. Uma limpeza rápida com Dodots (mas, também, ... quem seria capaz de se lavar com água gelada, se a houvese?) e logo os dedos enregelados procuram algum conforto no copo de plástico com o chá bem quente do pequeno almoço. Pão egípcio, a quem as brasas deram alma, doce de figo, os omnipresentes triângulos de La Vache qui Rit, e estamos prontos.
Partimos ao ritmo aparentemente lento dos camelos. À nossa volta um mar de areia, dunas e rochas, muitas rochas de um branco impressionante.


L'extrême aridité, la sculpture étonnante de ses paysages, font du désert Blanc l'un des endroits les plus singuliers du Globe. Sa géologie apporte une vision inédite du désert. La craie éclatante le jour se pare de rose et de mauve au coucher du soleil et d'or sous la pleine lune. Le froid matinal donne aux ombres ce bleu si particulier de nos jours de neige, et l'imagination s'emballe face aux monstres de craie luttant contre les siècles d'érosion...

Patrick Darphin
in Le désert blanc

domingo, janeiro 14, 2007

Egipto - O deserto imaginário



O deserto branco, a uns 600 kms do Cairo, entre os oásis de Baharya e Farafra, é uma depressão de areia fina, leito de um antigo oceano, de onde emergem, como icebergs, impressionantes rochedos brancos. O tempo e o vento encarregaram-se de os esculpir dando-lhes formas surpreendentes, como se de estranhos cogumelos se tratassem.
Foi este o local escolhido para um Natal diferente, sem árvore e iluminações, sem perú, sem bolo-rei. Um Natal que partilhei com um divertido grupo de doze almas: 9 franceses, 1 belga, 1 coreana e eu. E os indispensáveis guias e cozinheiro, 3 dromedárias.

Foram dias de desconforto, de frio, de cansaço mas, essencialmente, seis dias de sonho. Durante 6 dias percorremos quase 120 kms num cenário irreal, lunar. E continua a não haver nada mais belo que acordar a meio da noite, abrir os olhos e ter por tecto um céu de milhões de estrelas...

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Mochila às Costas



De partida para o Egipto, para mais uma imersão no deserto. Uma caminhada de 90 kms atrás de uma caravana de camelos na zona oeste do Egipto, perto da fronteira com a Líbia cujos pormenores se podem espreitar aqui. À minha espera está uma paisagem quase irreal: rochas brancas que sobressaem do ocre da areia como se de enormes suspiros se tratassem. Noites ao relento num hotel de milhares de estrelas, o silêncio, a magia das areias... E o regresso à civilização a 3 de Janeiro.

J'ai toujours aimé le désert. On s'assoit sur une dune de sable. On ne voit rien. On n'entend rien. Et cependant quelque chose rayonne en silence.

Antoine de Saint-Exupéry

domingo, dezembro 03, 2006

Are you ready for the rapids?


As tumultuosas águas do Zambeze são palco para o que é conhecido como ``o rafting mais selvagem do mundo''. Uma sucessão impressionante de difíceis rápidos de grau 5 e 6, que incluem violentos turbilhões, desníveis acentuados com perigosas rochas semi-cobertas. E, claro, inevitáveis quedas na água esperam todos quantos se atreverem.
Demasiado arriscado para a senhora de provecta idade que sou! Assim, optei pela emoção controlada do ``jet boat'' nos rápidos, uma, mesmo assim, aventura intensa, com rápidos de classe 3, 4 e 5. E é num barco de 6 metros com dois motores de 350 cavalos, que enfrentamos a impressionante muralha de água das quedas, junto ao rápido "against the wall", a escassos metros da catarata onde a água cai com tanta violência que é difícil manter os olhos abertos, e mergulhamos, literalmente, nas águas do rápido número 2. De cortar a respiração!


Mas, ... passo a palavra à Nicole, companheira desta e de outras aventuras, que é também a autora da fotografia que acompanha este post:

Après avoir vu les chutes du haut et de très haut (hélicoptère), nous les approchons enfin de très près. Un petit tour en jet-boat, pour avoir quelques sensations sans danger. Pour le rafting, c'est d'un niveau trop élevé pour nous. Après avoir descendu un "chemin" très scabreux, le Zambèze est là, à nos pieds... Le bruit est encore un peu sourd.... Equipement, embarquement. C'est parti ! Et les sensations seront plus fortes que prévues ! Nous serons bien sûr douchées et redouchées par les rapides, ballotées à gauche, à droite, en haut, en bas.... Mais le plus impressionnant est d'approcher de très près le point de chute des eaux: nous en sommes à environ 15 mètres. On devine depuis le ciel bleu, loin, tout là-haut, derrière un bout d'arc-en-ciel..... même les yeux remplis d'eau et d'embruns. On est au coeur de deux très forts courants, rapides tumultueux, qui arrivent de part et d'autre de l'embarcation avant de s'engouffrer dans le Zambèze déchaîné, prisonnier de la profonde fracture de basalte. Ce Zambèze là n'a rien à voir avec celui d'avant les chutes, si calme, paisible, large, silencieux. Ici, le bruit est assourdissant. Les chutes sont fortes, puissantes, majestueuses.


Se bem que nada se compare às realidade das sensações vividas, o ficheiro Jetboat Showreel dá acesso a um pequeno vídeo da actividade.

terça-feira, novembro 28, 2006

3-2-1! Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah..... (Bungee Jumping nas Cataratas Vitória)


Não é uma ponte qualquer a que, a poucos metros das cataratas Vitória, une o Zimbabwe e a Zâmbia. A ideia deve-se a Sir Cecil Rhodes que queria que os passageiros dos comboios que aí passassem recebessem na cara as águas das cataratas.

Build the bridge across the Zambezi where the trains as they pass will catch the spray from the falls.

E foi precisamente na ``no man's land'', num vagão parado sobre a ponte, que decorreram as negociações da independência da Rodésia que dariam origem aos actuais Zimbabwe e Zâmbia. Se nos nossos dias perdeu a importância estratégica ganhou fama entre os muitos turistas que visitam as cataratas.
Do alto da ponte, com as quedas de água ao fundo, num vôo de 111 metros de adrenalina pura, os mais corajosos testam os limites da mente e do medo lançando-se no vazio sobre os rápidos do Zambeze.
Escusado será dizer que a tanto não me aventurei e que me limitei a assistir às performances dos bravos saltadores que, depois do feito são içados de volta à ponte à força de braços humanos.

E, não tendo recordações de um salto particular para mostrar, fica aqui o filme de um salto encontrado ao acaso no Youtube.

domingo, novembro 05, 2006

Zimbabwe - Cataratas Vitória




Apesar de tidas como uma das 7 maravilhas naturais do mundo, património mundial da Unesco, foi com alguma suspeição que cheguei às cataratas Vitória. Anunciada como a ``capital da adrenalina de África'', a cidade de Victoria Falls, junto às cataratas, não augurava nada de bom. As páginas dos guias de viagem são pródigas em prometer inesquecíveis vôos de helicóptero ou ultraleve, bungee jumping, rafting e jetboat nos rápidos do Zambeze, safaris de elefante e passeios com leões, cruzeiros a montante das quedas ... tudo para ocupar e entreter os visitantes.
Esperava, assim, encontrar algo parecido com as cataratas de Niagara: quedas de água lindíssimas mas rodeadas de néons, comércio desenfreado, casas de fast food, lojas de recordações kitsch, americanos gordos e barulhentos, bandos de japoneses a metralhar incessantemente as cataratas com a fúria de paparazzi.
Enganei-me, felizmente. A cidade, não é, de modo algum, uma típica cidade africana, nem permite que se tenha um vislumbre do que é o Zimbabwe, mas , apesar das muitas agências que comercializam as actividades e de um comércio dirigido a nós, turistas, é uma cidade tranquila.
E as cataratas Vitória, a escassos um ou dois quilómetros da cidade, magnificamente enquadradas no parque natural que leva o seu nome, são um oásis de paz, de comunhão com a natureza. Durante algumas horas passeámos por uma floresta tropical, por entre carreiros cuidados, vimos as quedas de perto e de vários ângulos, cumprimentámos a estátua de Livinsgstone, bebemos água dos salpicos que nos deixaram ensopadas.
E, diga-se em abono da verdade, pela beleza das cataratas e pelas impressionantes características geológicas, o título de maravilha do mundo natural é mais do que merecido.